Sabem quando se acerta mesmo ao lado? Pois bem, quando se tem uma ideia e se começa a escrevê-la, ela ganha vida própria e acaba por seguir desgovernada. Por vezes, chego ao final de um artigo e fico impressionado como acabei por não dizer o que queria, apesar de ter escrito sobre o que queria. Na semana passada aconteceu e, tratando-se de um assunto mais intimista e ao qual julgo ser pertinente ser adicionado mais alguns aspetos, por isso, hoje retomo o fio à meada.
Na semana passada escrevi sobre a inércia que sinto em debruçar-me sobre os projetos, planeando, mas raramente conseguindo executar. Por me parecer algo algo transversal, fi-lo. Dúvidas houvesse, basta olhar para o associativismo – que tem outras carências igualmente obstaculizantes, que por sua vez, se manifestam também nos indivíduos e os leva a afastarem-se destas atividades. Tentei mostrar como isso me parece ligado à drenagem de energia inerente à sociedade (capitalista) em que vivemos: entre o ritmo acelerado da vida e a fixação na competitividade – mesmo connosco próprios.
A contribuição voluntária à comunidade, importante para a dinamizar e fortalecer, sofre particularmente com essa inércia. A atividade comunitária por excelência, a política, fica empobrecida – surgindo aqui um ciclo vicioso. Por ser esta uma peça central de mudança, permitam-me deixar aqui alguns testemunhos da minha experiência de sete anos como agente político. Desde logo, a política é vista como um capricho (estendo esta observação ao associativismo): as pessoas praticam-na como passatempo. Claro que isto está ligado diretamente à visão clubística que se tem. Isto é evidente no âmbito local ou para candidatos que não se conseguem eleger, quando avançamos para os ocupantes de cargos públicos o pensamento muda: são os tachos. As generalizações, contudo, mantêm-se: é tudo igual. Isto é o apelo à inação da própria comunidade, é a automutilação, a demissão do poder sobre si própria! Fazer política é entregar-se à comunidade e enquanto não a dignificarmos, nunca será digna. Poderia ainda acrescentar o «devias mudar de partido», como se as urnas só aceitassem certas cruzes, e o «és demasiado novo», como se isso excluísse qualquer contribuição válida. Quem sai do sofá é puxado por quem nele está.
No meio disto, dou comigo a pensar em como posso “simplesmente” profissionalizar-me, provavelmente como professor no ensino secundário, e viver a vida recatadamente, num canto, rodeado pela família e amigos, numa ilustrada ignorância e negligente inocência. Talvez haja quem leia estas linhas e me troce por estar a enunciar tão doces planos de vida num tom tão espinhoso. Pois bem, faço-o por serem uma ilusão: para muita gente esta “simplicidade” não está ao seu alcance. As aspas advêm de por detrás desta palavra estar subentendida contextualmente uma outra: estabilidade. No momento em que o maior sonho de muitos jovens é comprar casa, no tempo dos estágios, da precariedade,… a estabilidade é um privilégio que nos sai em rifa através da família que nos sustenta. Esta vida, que seria a mais básica das ambições, não está ao alcance de todos, isso não nos importa? Levar essa vida, agora, seria entregar a vitória a um sistema doente. Esta vontade vem de uma misantropia que, afinal, é asfixia pelo sistema. Isto é, aliás, o que garante, muitas vezes a sua sobrevivência: segmentar quem por si sai prejudicando, criando grupos ilusórios com desavenças artificiais – “dividir para reinar”. É a pensar num futuro mais distante, numa conversa com possíveis netos, que percebo que não pretendo ser um vencido da vida. Isto é suficiente para uma motivação política, contudo, os projetos pessoais, ainda que para a comunidade, ainda ficam pelo caminho.