Não sei se rio, ou se choro. Na passada quinta, li no Público uma reportagem sobre as eleições na Madeira – publicada nesse mesmo dia. [1] Os três jornalistas fizeram um grande trabalho de desconstrução de discursos e investigação muito importantes para os eleitores não terem à sua disposição as narrativas partidárias – nenhuma candidatura principal foi poupada. Talvez a única nota que tenha ficado de fora foram as advertências da CNE a Miguel Albuquerque sobre instrumentalizar a sua posição de presidente do governo regional em seu favor – algo que o Público noticiou no mesmo dia dessa reportagem.
Ficamos a saber que o candidato do Chega colocou baixa durante a pré-campanha: impossibilitado, supostamente, de fazer esforços, meteu-se a fazer arruadas ao lado de Ventura – são estas pessoas que falam em «malandros». Mas aquilo que mais me chocou foi uma passagem que inclui o nosso próprio deputado açoriano desse partido – e que aqui reproduzo:
«Quando José Pacheco, deputado regional do Chega nos Açores, apareceu junto da comitiva, Castro [cabeça-de-lista do CH na Madeira] felicitou-o dizendo aquela ser a “união nacional”. Pacheco sorria, sendo impercetível perceber se eles entendiam o que acabava de ser dito.»
Para o caso de o leitor não estar a ver imediatamente a pertinência da referência e do comentário dos jornalistas, tenha em conta que «União Nacional» é o nome do extinto partido salazarista, partido único do Estado Novo. Temos agentes políticos, potencialmente, a convocar a memória de uma organização fascista. Julgo ser evidente a problemática. Claro que podem dizer que foi só uma expressão infeliz: nesse caso, não deveria Pacheco reagir de forma distinta da de um sorriso? É possível termos na casa da democracia açoriana um deputado que desconhece a História recente do seu país?
Este episódio lembrou-me uma música dos Pet Shop Boys, de 2019, [2] que afirmava, numa tradução livre minha, «Pessoas inteligentes já tiveram o seu dizer / É tempo dos idiotas mostrarem o caminho / Vamos levar este mundo a uma dança alegre / Vamos dar uma oportunidade à estupidez» e continuava com «Esquece o politicamente correto, eu digo W-T-F / Não quero pensar sobre o mundo / Quer falar de mim próprio / Em vez de governar com ponderada sensibilidade / Vamos chocar e estupeficar o mundo com ódio idiota».
Como somos o fruto das nossas circunstâncias, da «sorte», ontem, no meio de uma fraterna aventura para apanhar um autocarro, li um livrinho que me deu uns conceitos capazes de colocar em ordem intuições que já tinha, sendo que os associei a esta questão: como evitar este mal da ameaça da extrema-direita, como cortá-lo pela raiz? Cohen [3] diz-nos que o nosso sistema se baseia no egoísmo e no medo, condições humanas, pelo que o caminho para um melhor sistema é redirecionar para a generosidade – o grande desafio é construir esse mecanismo, algo que o capitalismo fez muito bem com aqueloutras. A cereja é a «amizade social»: «não se pode ser amigo dos milhões de pessoas […] Basta que eu trate todas […] com quem me cruzo com a atitude de reciprocidade […] da amizade.» Cooperação em vez de competição.
Enquanto escrevo estas palavras, os madeirenses estão-se a fazer ouvir nas urnas, não sabendo ainda o desfecho – podia ficar até tarde a aguardar, como já fiz aqui noutros momentos, mas julgo que o meu comentário não é assim tão bom para ter de fazer parte da multidão de comentadores que se vão acotovelar nestes dias.
[1] https://www.publico.pt/2023/09/21/politica/noticia/eleicoes-madeira-regi...
[2] https://www.youtube.com/watch?v=P9jEuHbB0GQ&ab_channel=PetShopBoys
[3] Cohen, G.A., Socialismo. Porque não?, Gradiva, 2016