A politiquice das nossas procissões

O verão é fértil nas festas populares, em todas as freguesias e municípios temos celebrações religiosas, nomeadamente, missas e procissões. São estes momentos as mais expressivas manifestações da fé católica nas nossas ilhas.

Nestas alturas temos as ruas adornadas, os tapetes de flores nas estradas, e animação à noite. Tanto nós como os turistas regalam os olhos para aproveitar ao máximo o tempo de descontração e alegria.

Mesmo não sendo um fervoroso crente, vejo estes momentos como manifestações culturais que enriquecem a nossa cultura e trazem a comunidade para a rua, num convívio intergeracional. Um evento religioso, uma feira do livro, um festival, um acontecimento desportivo, um teatro,… Tudo formas de dinamizar. Normalmente, os eventos religiosos têm inerente a participação gratuita que é um garante da universalidade de participação (dentro da comunidade religiosa, claro está). Toda a cultura (como a educação) deveria ter esse caráter de acessibilidade, não obstante, não é essa discussão que pretendo explorar.

Na passada terça, dia 15, no feriado da Nossa Senhora da Assunção, assisti à procissão que ocorreu em Vila do Porto. É notória a desmobilização de participantes e, até, de observadores. Olhando em volta, parecia-me claro que larga fatia dos que observavam eram emigrantes ou turistas. Trata-se de algo que tem acontecido progressivamente, sendo transversal a vários eventos. Quer se trate da energia mental sugada por ter um salário ao fim do mês, ou um posicionamento arcaico da Igreja, é uma evidência que deve gerar discussão – no entanto, não me parece que haja menos cristãos, da mesma forma que os abstencionistas têm pensamento político e os ausentes de palestras/tertúlias têm cérebro.

O que me traz aqui hoje é que, mesmo havendo uma desmobilização de participação nas procissões há sempre um segmento assíduo: os políticos. Ocupantes de cargos públicos, autárquicos ou regionais, vestem as melhores roupas para desfilarem na praça pública, tentando mostrar as boas pessoas que são. Este espetáculo acontece em todo o lado, sendo, talvez, o cúmulo açoriano desta evidência o Santo Cristo dos Milagres em Ponta Delgada, com a presença de figuras políticas regionais.

O problema que aqui trago é muito simples: o nosso Estado é laico. Os assuntos públicos não são moldados em função de qualquer religião, da mesma forma que qualquer cidadão tem o perfeito direito de escolher a sua religião, sendo proibida qualquer discriminação. Esta linha entre crença e coisa pública é importantíssima por ser um garante de liberdade e autonomia (do Estado e do indivíduo). Nos parágrafos anteriores afirmei eventos religiosos em vez de menções diretas ao catolicismo, justamente por acreditar na universalidade do que disse.

Alguns dirão que fará sentido os representantes do povo estarem presentes porque a maioria é católica. Este argumento o que faz é atacar pura e diretamente a laicidade. Não obstante, podemos pensar um pouco: não há uma maioria de portugueses a gostar do Tony Carreira, Bárbara Tinoco, Mariza, e, no entanto, não se vê uma enchente de políticos nos concertos? Além desta seletividade há uma outra: a representação é de todos os portugueses, 100%.

Numa outra resposta diz-se que os políticos estão lá como indivíduos, tentado contornar o problema: se isso fosse verdade, essas pessoas iriam onde estão todas as outras, não segmentadas. Além de todos os políticos irem juntos numa zona específica, eles organizam-se por organismo e hierarquia. Que coincidência!

Haja respeito pelas instituições!