Tenho aqui falado sobre as forças que nos empurram para acreditar na inevitabilidade da nossa situação, que nos fazem conformar. Há duas semanas identifiquei o problema falando em despolitização, apelar-se no discurso político diretamente, ou no popular, a uma abordagem do problema que o foque sem contexto e oriente par a solução do «bom-senso» - aquela «equidistante», centrista, «moderada». Na semana passada radiquei duas forças movem essa agenda na educação e no tempo, no ataque à primeira e no estrangulamento do segundo. Muito falta dizer sobre este assunto tão complexo por denotar a nossa formatação por um sistema, parece-me pertinente prolongar o assunto percebendo outros sintomas e outras consequências.
Antes de mais, à semelhança da semana passada, parece-me importante esclarecer o tom conspiracionista: quando falo em sistema, refiro-me à nossa organização económica e social, que podemos enquadrar na visão neoliberal.
Um dos pontos que mais joga a favor desta sistema é a sua capacidade de criar feedbacks positivos, ou seja, de tornar os seus sintomas em causas de si próprios. Tomemos como exemplo dois assuntos, entre si relacionados, que têm um papel de destaque no nosso quotidiano.
A desinformação está hoje perigosamente normalizada. Uma ida às redes sociais revela-nos carradas de publicações sem qualquer preocupação com o rigor informativo. As fake news são republicadas vezes sem conta, sendo o seu alcance muito maior do que qualquer desmentido que venha a ser feito. Parece que qualquer coisa vale. A verdade está resumida a um título e, talvez, um lead, devidamente recheado de adjetivos. Não sabemos para onde nos virar para saber o que está certo, acabamos por cair num relativismo: cada um que fique com as suas verdades. É assustador como somos capazes de ter consciência disto sem o criticar: há uns dias falava com uma pessoa que me disse «disseram-me que era assim, eu acho que é assim, até posso estar mal, mas para mim não importa, é assim». Este relativismo, por um lado, desorienta-nos sobre a verdade, e por outro predispõe-nos a aceitar um caminho, a troco de não termos de lidar com a sua procura. O relativismo empurra-nos para o autoritarismo.
Não pensamos e não queremos pensar. A isto está adjacente um fenómeno de anti-intelectualismo. Há uma aversão ao próprio pensamento. O exercício teórico é visto de lado, como sendo algo fútil e inútil. O importante é arregaçar as mangas, partir para a ação, produzir algo, algo útil.
Há uma exceção: pensar só se for para otimizar. Negligencia-se o facto da técnica nascer do conhecimento. A complexidade desta temática deve ser imensa. Não é só o sistema dizer-nos para não pensar condicionando a investigação ou privilegiando consumos culturais menos densos, é o seu reflexo nas mentalidades. Não rara a vez, são as pessoas mais vulneráveis que adotam uma postura jocosa perante o que identificam como intelectual: é o cenário perfeito: quem mais tem a ganhar em pensar, é levado a rejeitar esse passo.
Rejeitamos as «conversas profundas», caricaturando-as como quase uma viagem psicadélica. As conversas quotidianas vão saltando de temas em temas com frases feitas. É preciso recuar e pensar. Pensar além do 2D do problema. Ter uma visão integrada. Dá trabalho: é preciso procurar informação, perceber os contextos, e relacionar tudo coerentemente; mas é o caminho da emancipação.
Temos de ser capazes de deixar de aceitar passivamente o que acontece e perguntar-nos: porquê?