No passado domingo decorreram as eleições no Brasil. Como quero olhar melhor para os resultados e tenho de escrever este artigo até ao final desse dia, vou deixar para uma próxima oportunidade essa discussão.
Hoje falo de preguiça.
É muito fácil sentarmo-nos no sofá e simplesmente não querer fazer mais nada. Acordamos e só querermos ficar no calor da cama. Mas será isso natural? Sendo nós um milagre cósmico, um fruto de probabilidades quase nulas, não deveríamos estar felizes por estar vivos? Eu não tenho dúvidas de que a esmagadora maioria de nós se sentiria jubilante por poder celebrar a vida. O que nos prende?
Antes de prosseguir com a resposta, que se note que esta figura expressiva do sofá aplica-se à nossa realidade, ainda assim com exceções, mas está longe de poder ser literalmente aplicada a uma fatia enorme da população. Todos os problemas de que podemos aqui dizer que nos afligem são uma fração daqueles que afligem pessoas que vivem naquilo que gostamos de chamar terceiro mundo para nos sentirmos melhor. Também não nos podemos esquecer que dentro de Portugal há um «terceiro mundo». Perceber que há sempre caminho para melhorar, que cada um de nós tem os seus privilégios e azares de nascimento, que todas as lutas enquanto temáticas e obstáculos do quotidiano são transversais no globo, com as suas respetivas especificidades, é importantíssimo para qualquer debate. Termos consciência de onde partimos, de que somos todos muito parecidos uns com os outros e só procuramos a felicidade.
Posto isto, de onde vem esta preguiça? Noutras palavras: de onde vem este cansaço? De onde vem aquilo a que os ressabiados ou exploradores são capazes de qualificar como «não ter vontade de trabalhar»?
De um sistema que se baseia na desigualdade: a busca pela acumulação de riqueza onde, para um ganhar, outro tem de perder. Que se note que acumular riqueza não tem de ser ficar milionário, pode ser simplesmente garantir a sobrevivência de uma família. Somos posto em competição direta entre nós, ao invés de uma cooperação que nos permita viver bem e em harmonia numa comunidade unida.
E para quê? Salário mínimo? Tenho um amigo que diz: para salário mínimo, mínimo esforço. Não terá ele razão até certa parte? É fácil os empregadores queixarem-se da produtividade, mas explorar os trabalhadores, levando-os aos seus limites a troco de remunerações precárias não conduzirá a um esgotamento que inviabiliza a produtividade que tanto ambicionam? Percebo as carências e necessidades de muitos empresários, mas elas não podem servir de justificação para manter um sistema que humilha quem trabalha.
É interessante notar que este cansaço não se aplica só a trabalhadores. É a criança que vem da escola sobrecarregada de trabalhos para casa, é o estudante universitário com o peso de uma carreira de sucesso aos seus ombros, é o pensionista que conta os tostões,… Todas as pessoas sentem uma pressão sobre si em muito superior à pressão atmosférica. Qual a gravidade que nos prende a este sistema?
Vivemos num estado que nos permite mostrar descontentamento e escolher as nossas lideranças. Sejamos capazes de mostrar que exigimos um sistema melhor. Todos temos os nossos problemas, mas se cada um apoiar o outro, de forma mútua, então a nossa voz individual ganha mais força. Uma mão lava a outra. É nesse movimento transversal de fraternidade, onde as lutas se unem que conseguiremos viver fora deste cansaço, que só beneficia quem nos quer quietos num canto quando estamos no nosso tempo livre.