Várias vezes foram aquelas em que ouvi a minha avó dizer que nasci num berço de ouro. Nada mais certo. Efetivamente aquilo que me rodeia são privilégios. Reconhecermos que somos beneficiados pelo sistema, não quer dizer que não o possamos contestar. Tal como não faz sentido analisarmos aquilo que nos rodeia, sem termos consciência de onde estamos.
Vivemos nos Açores. Infelizmente, é uma região com uma das mais altas taxas de pobreza. Não obstante, grande parte dos açorianos nunca se teve de preocupar propriamente com a possibilidade de passar fome. Temos um sistema de saúde onde qualquer pessoa pode ser atendida e intervencionada sem custos, bem como um ensino público universal. Nem tudo está bem, mas comparados com muitos pontos do nosso globo, estamos claramente em vantagem.
Tanto temos ouvido falar das notícias que nos chegam da Ucrânia, de um cenário de guerra inconcebível no século vinte e um. Desde a Segunda Guerra Mundial que a europa não tinha junto a si uma ameaça militar desta ordem. Que se note quem em muitos sítios ao redor do globo existem inúmeras guerras, no entanto, nós, europeus, tendemos a ignorá-las muitas vezes porque estão longe da nossa vista. Ver as imagens devastadoras de pessoas a terem de abandonar as suas casas, umas quantas destruídas mesmo, faz-nos valorizar a segurança que temos. Portugal é considerado um dos países mais pacíficos do mundo (apesar de haver quem tente passar a ideia contrária para extremar o campo político). Somos, enquanto país, privilegiados por isso. O mínimo que o Estado pode fazer é reafirmar as vezes que forem precisas a disponibilidade para receber refugiados.
Assumirmos o privilégio (tal como as limitações) é ter a capacidade de analisar a situação, sendo o primeiro passo para depois podermos tomar uma ação no sentido de harmonizar a nossa sociedade. E que se note que mais do que nunca, a nossa sociedade inclui cada pessoa à superfície da Terra. Temos formas de comunicação que nos permitem transmitir mensagens de forma instantânea para qualquer parte. As manifestações que existem movidas por causas são, por isso, um excelente exemplo de ativismo. Em grande parte, simbólico, sim, mas com uma mensagem muito forte que chega a muita gente.
Olharmos para Ucrânia e percebermos a paz em que vivemos não é para nos autopromovermos, mas sim para termos consciência da nossa riqueza e podermos tomar uma atitude para, agora que a valorizamos, podermos cuidar dela dentro das nossas fronteiras e fazer o possível para que ela exista em todo o lado.
O mesmo argumento sucede em outras áreas. Quem vive economicamente desafogado deve ter consciência disso e defender os mais desfavorecidos, não com a inércia da caridade, mas através dos meios para influenciar as decisões políticas. Que se note que aqueles que menos têm são muitas vezes os mais explorados, ficando o seu pensamento limitado à sobrevivência diária. Parece paradoxal o facto de que muita gente marginalizada pelo sistema se abstenha nas eleições. É sintomático disto mesmo: quem mais tem a ganhar em mudar o sistema, é também quem mais impotência sente que tem. Temos de sair da nossa bolha e mostrar que as injustiças devem ser combatidas, que todos temos um lugar digno. Todas as lutas se intercetam, devemos estender a nossa mão ao próximo.
Nós vivemos todos numa comunidade, somos uma teia. A fraternidade e a solidariedade devem ser valores basilares. Fazermos o máximo possível para melhorar a vida de todos, incluindo a nossa.