Qual o papel dos pais?

A parentalidade é uma atividade essencial para a nossa comunidade. Naturalmente, temos a família como a unidade básica, a estrutura social mais radical da comunidade, abaixo disso, só indivíduos. É nessa estrutura que se dá a socialização primária, ainda antes de haver um Estado a educar através da escolaridade obrigatória. Grande parte do que somos radica do nosso contexto familiar, quer seja pela ordem genética, quer seja pela vertente cultural de socialização. Não obstante, o exercício da parentalidade, algo tão basilar e quotidiano, é motivo de escorrer palavras pelas secções de auto-ajuda. Os pais têm orgulho da sua forma de educar, consideram-na sempre a melhor possível, levando a que hajatantas formas de educar uma criança como pais no mundo. Fica evidente que teoricamente a parentalidade é um conceito muito bem definido socialmente, mas na prática há uma enorme diversidade e até conflito de posições.

Antes de tentar explorar melhor o papel dos pais, notar que uso esse conceito para falar de quem acompanha quotidianamente o crescimento da criança. São várias as alterações que temos vindo a ver com o objetivo de alargar os vários tipos de família (alterações legais, uma vez que a família tem um reflexo jurídico, já que desde sempre existiram famílias que não se enquadram na definição tradicional). Talvez o primeiro grande passo no alargamento seja a adoção, ou seja, a família não ter de ter uma relação genética. Outros passos são o reconhecimento de famílias monoparentais, mudando os números. Também podemos adicionar aqui a possibilidade de casais homossexuais constituírem família, entre outras circunstâncias. O ponto é que a parentalidade varia não só na forma, como nos agentes, havendo uma tendência progressiva para ir alargando as possibilidades de se constituir família - numa ótica de inclusão e não de substituição.

Então, qual o papel dos pais? Preparar para o mundo. Suportar os filhos até estes conseguirem assegurar a sua independência. O mundo natural parece reger-se assim e nós, com as muitas variações e modificações históricas pela qualidade de vida, parecemos manter. Numa primeira fase, educa-se a criança a comportar-se em sociedade. Na seguinte, serve-se de ninho na aprendizagem sobre o mundo. Depois, são uma bengala no lançamento para o mundo.

Os pais são, portanto, uma figura de referência. Por vezes distanciamo-nos do seu exemplo, noutras aproximamo-nos. Com base nos seus princípios e valores, veem essa dinâmica dos filhos com melhores ou piores olhos. O objetivo será ver o filho tornar-se uma pessoa que age com base nesses valores. De forma geral, e apesar da subjetividade, esse objetivo é de ser decente. De aproveitar as oportunidades que foram dadas com dignidade e respeito. O lugar do filho é fazer o melhor que pode com os recursos que lhe são facultados - recursos como educação, alimentação, alojamento, livros, brinquedos, formação musical, desportiva,... Tendo em mente que não faz sentido insistir em recursos não essenciais que não correspondem ao interesse da criança.

Talvez uma das questões mais prementes seja a comunicação: sobre que temas versam as conversas entre pais e filhos? Com o tempo, chegamos a um ponto em que sabemos as conversas a evitar, não por mal, mas por desinteresse ou evitar conflito. Por uma questão de harmonia, cada família tem os seus próprios rituais.

Isto leva-nos ao momento em que se inicia a independência: onde há uma reformulação na parentalidade. Vários pais adotam estratégias diferentes, sendo o objetivo o de apoiar o filho e manter a sua presença, até os pais serem os que precisam do apoio. Para a semana retomo o raciocínio.