Ora, outro dia voltei a deparar-me com justas críticas à inaptidão, com que saímos da escolaridade obrigatória relativamente à interação com as entidades governamentais, como a utilização do Portal das Finanças ou da Segurança Social. Há um acumular de responsabilidades que nos vão aparecendo progressivamente à medida que vamos ultrapassando as etapas onde parece que somos deixados por nossa conta. Até aqui, tudo bem. O meu problema com as críticas vem quando continuam a sua formulação atacando os conteúdos lecionados: para quê equações? Para quê aprender Pessoa? Enfim, vamos por partes.
Desde logo, há que perceber que o ser humano é um animal social, tendendo para uma vivência em comunidade (quer seja diretamente, quer seja por conveniência). Percebemos que é na união que temos mais frutos, mais acumulação de riqueza, então inventamos a repartição de tarefas e assim se formaram as profissões. O problema é: precisamos de organização, de garantir um mecanismo estável para a sobrevivência dessa comunidade. Então institucionalizamos, legislamos,… Ou seja, criamos entidades abstratas, mas às quais reconhecemos autoridade sobre as suas competências. O aprofundamento democrático e do Estado Social levam inevitavelmente ao aparecimento de burocracia. Podemos argumentar que vivemos em Estados, muitas vezes, excessivamente burocráticos e até se podiam apontar as razões mais ou menos perversas na base disso. O que importa é que é sempre necessário um mínimo de burocracia, sendo que é com a acumulação das responsabilidades que nos deparamos com ela.
Uma consequência desta lógica é a necessidade do cidadão conseguir orientar-se pela informação. Para isso é necessário existirem fontes, como sites (intuitivos) funcionários públicos bem informados, mas também educação de partida sobre o assunto. Na escolaridade obrigatória deve haver a preocupação de se introduzir aos aspetos práticos da vivência comunitária. Desde logo, perceber no que o Estado assenta (Constituição) e como funcionam as instituições. Numa segunda fase, a introdução a responsabilidades transversais, como as relacionadas a impostos, a vínculos laborais, bem como aos serviços públicos. Obviamente que não se pode pedir um ensino de direito, não se pode mencionar todos os casos, mas transmitir as noções base e indicar onde se deve dirigir em última instância para ter uma resposta. Isto facilmente seria feito em meia hora por semana de Cidadania no secundário. Para termos a cereja no topo do bolo: um fomento de um conjunto de literacias no ensino básico em cidadania – esta última parte está no papel, mas parece ficar por concretizar.
Esta literacia do que é ser cidadão, do que é ser estudante, trabalhador, pai, empresário, doente, contribuinte,… é fundamental para garantir que todos temos o melhor usufruto das ferramentas da nossa comunidade.
Voltando à educação. Da mesma forma que é importante saber como nos movimentar no sistema, também é importante ver além do sistema. Não é suposto formatar robôs. Não queremos pessoas que nascem, procriam, pagam impostos e morrem, sem sentirem o mínimo de autorrealização. Então temos de dar ferramentas de pensamento. Uma importantíssima é a da língua. Perceber como falamos. Aumentar vocabulário. Pensamos como falamos, que se tenha isso em mente. A literatura, mais do que capricho nacionalista, é o modo de mostrar como o indivíduo pode dominar a língua. Eu até acho que no 9º ano se devia dar a Alice no País das Maravilhas como leitura em inglês – em vez de serem só micro-textos artificiais. Novas línguas são novas formas de pensar.
Relativamente a outras disciplinas: saber como funciona a combustão evita um incêndio, saber derivar poupa dinheiro,…