Quando há excesso da população, abate-se

António Ventura é um político com uma forte veia lírica: não contente com a invenção da máquina do tempo, no início de junho, quando disse «uma visão estratégica […] é a capacidade de ir ao futuro ver como está a ocorrer e voltar ao presente», na semana passada decidiu abraçar o pragmatismo afirmando «quando há excesso de população, abate-se». Talvez não pareça algo com tanta força ou impacto, contudo os dezanove gamos florentinos que perderam a vida devem ter uma opinião distinta.

Estou longe do génio retórico de António Ventura, não obstante posso tentar reproduzir a sua fórmula.

Quando o escaravelho japonês e a rugulopterix okamurae se tornam pragas, assobie-se. Quando se tem uma dívida a uma empresa com 49,9% de participação privada, pagam-se juros acima dos legalmente necessários. Quando cheira a bazuca europeia, encha-se os bolsos da clientela. Quando abre vaga nos concursos públicos, contrate-se o boy. Quando um governante detém empresas, adjudique-se. Quando há um Faria e Castro, arranje-se uma Rosa Costa. Quando a mobilidade inter-ilhas é realizada exclusivamente por avião, privatize-se. Quando se quer melhorar a mobilidade, afunde-se as ligações marítimas. Quando a única forma prática de mover dentro de Santa Maria é de carro, conserve-se as estradas esburacadas. Quando uma ilha se queixa de poucos voos, mande-se a camioneta do Q200. Quando se elogia os festivais, corte-se-lhes o apoio. Quando a natureza é a imagem de marca, despreze-se a Rocha dos Bordões. Quando a saúde é parente pobre, ignore-se as dezenas de milhões que a região não transfere desde 2021 às Unidades de Saúde de Ilha. Quando se anuncia pomposamente um concurso internacional, adjudique-se o máximo permitido a uma empresa para cumprir o mesmo propósito. Quando se quer sustentabilidade ambiental, aplaudam-se os cruzeiros na região. Quando se cria um apoio à natalidade, que se exclua 73% das famílias açorianas. Quando se quer sufocar a região, que se opte pelo endividamento zero. Quando se quer aprofundar a autonomia, que se empurre para 2026 um nova Lei das Finanças Regionais. Quando se quer desenvolver a região, cesse-se o investimento público. Quando é preciso, maquilhe-se as contas. Quando a inflação dispara, rejeite-se qualquer controlo de preços. Quando se quer ilhas com mais carros que pessoas, aumente-se o preço dos transportes públicos. Quando se diz muitas vezes que o custo de algo não vai subir, é subi-lo.

Entretanto, com toda a pesquisa que fiz, perdi a vontade de continuar. É com cada má decisão atrás de outra que torna impossível um açoriano ler isto e não ficar maldisposto. Quando vamos ter uma região que se preocupa com as pessoas? Que não coloca os interesses económicos primeiro? Que não coloca a politiquice primeiro? Quando vamos ter uma região que é mais do que uma fachada verde? Queremos ou não a sustentabilidade ambiental? Na altura em que vivemos esta pergunta só tem uma resposta e ela obriga-nos a deixar o greenwashing de lado e tomar medidas a sério. Não é por termos árvores, lagoas e vacas que somos uma região sustentável. É quando a energia é fornecida por fontes renováveis, quando a mobilidade é sustentável, quando a via pública é verde,… Peguemos na máquina do tempo e percebamos que sermos fritos pelo alcatrão, habituarmo-nos a derrocadas e furacões é um assunto sério. Percebamos que as pessoas o que querem é viver a sua vida sem ter de se preocupar com ter um teto, comida em cima da mesa ou respeito. Elas têm de ser realidades quotidianas.

Quem paga são os gamos e os açorianos.