Podia vir aqui falar de muitas coisas. Podia falar do ridículo que é um governo abrir exceções em questões de proteção ambiental afirmando a primazia das tradições culturais – constituindo um perigoso precedente; podia falar na invenção das viagens no tempo que António Ventura anunciou quando disse «capacidade de ir ao futuro ver como está a ocorrer e voltar ao presente»; podia falar de tudo e mais alguma coisa, mas hoje falo da Bárbara Tinoco. Só agora ouvi as músicas que a artista lançou há um mês (do álbum Bichinho) e estou viciado.
Manifesto que já antes deste álbum gostava da sonoridade de Tinoco. O seu ultrarromantismo lírico e melódico seria capaz de que fazer corar Almeida Garrett. No entanto aquilo que pretendo aqui trazer é outra dimensão: o impacto social da música que é ouvida por milhões. Bárbara Tinoco é uma estrela em ascensão que enche arenas e, mesmo ainda estando no início da carreira, decidiu abrir caminho na denúncia de problemáticas sociais na sua música. Os seus versos são uma crónica das suas experiências, tendo afastado receios de mostrar uma realidade politizável. Na música «Linha de Sintra» podemos ouvir «E homem do metro /A tocar-se a olhar pra mim», «Aprendi a rezar /Com medo de ser violada», «Só não tenho fé /Porque amar não é pecado / Acho estranho que seja com isso / Que o Papa está preocupado» e até um ético «Tive um namorado/ Em cada canto da linha / Voltava sempre pra casa sozinha». Estes versos expõem uma sociedade que se encosta no conforto do seu patriarcado. Bárbara Tinoco, mantendo a sua identidade musical, fazendo uso do seu talento com as palavras, a sua naturalidade e fluidez, leva aos ouvidos dos fãs este desabafo destemido.
Aquilo que me parece é que Bárbara Tinoco se juntou a uma nova vaga de artistas, que reinventaram a música de intervenção portuguesa. Uma geração que, pelo pop, tendo um grande público, não tem medo de se expressar sobre assuntos que podem ser vistos como tendo uma dimensão política.
Ivandro foi o artista português mais ouvido em Portugal em 2022 no Spotify. Este ano participou no Festival da Canção com «Povo», uma música onde afirma «Comprar uma casa e construir um lar, /De onde venho o povo ainda sofre / Mas todos sonham encontrar essa paz». Temos um artista dos tops a abordar racismo, colonialismo e pobreza. Isto tem poder. Anteriormente já tivemos Milhanas, com Agir, e Fado Bicha, entre outros, a trazer temas importantíssimos ao Festival. O segundo classificado deste ano, Edmundo, termina a sua música com o verso «As luzes não me deixam ver/ Se é uma festa ou uma luta de poder».
Este movimento não começou agora, já tendo, por exemplo, na Capicua uma grande representante: «Eu combato o patriarcado/ É esse o meu predicado / E só fica prejudicado / Quem fica do lado errado». Carolina Deslandes tem sido uma voz muito presente nos media para falar de igualdade de género, saúde mental, entre outros assuntos. Sofia Tavares também tem usado da sua exposição, principalmente nas redes sociais, para fazer passar esse tipo de mensagens.
Cada vez mais vemos artistas a permitirem-se expressar na sua música e além dela. Isto não tem de ser visto como mais ou menos ético, mas de certo que é um importantíssimo instrumento na consciencialização social.
Uma boa música não tem de ser vazia de conteúdo que não sejam dimensões amorosas – e mesmo através dessas se podem abordar muitas temáticas sociais.
Em jeito de conclusão, dizer que, talvez, a maior contribuição de Bárbara Tinoco, o maior fruto do seu romantismo, seja ao nível lexical: a introdução do verbo «utopiar».