Um sinónimo de uma democracia desenvolvida consiste no desenvolvimento do jornalismo. Uma comunicação social forte é a evidência do respeito pela liberdade de expressão, transparência e pluralidade. Não é, portanto, de espantar que reputadas organizações como a Amnistia Internacional, na defesa dos Direitos Humanos, e a Freedom House, na defesa da democracia, incluam nos seus relatórios sempre um parâmetro sobre a comunicação social.
O papel de um jornalista é informar a qualquer pessoa sobre o que o rodeia. O quê? Quem? Onde? Quando? Como? Porquê? São perguntas que devem ser respondidas sobre qualquer matéria: estejamos a falar de um escândalo financeiro ou de uma festa de Natal numa escola primária. Do âmbito nacional ao local, a preocupação dos órgãos de comunicação social é informar com o máximo de rigor.
Podemos adicionar aqui a questão da imparcialidade: a exigência de informação o mais factual possível, sem qualquer omissão invenção ou valoração. Esta questão não é vista de uma forma tão consensual como possa parecer à primeira vista, até porque é extremamente difícil alguém não deixar transparecer um bocado de si no trabalho que se escreve – idealmente, duas pessoas a escrever sobre a mesma coisa, por serem meticulosamente imparciais, deviam escrever o mesmo, algo que, claramente, não acontece. Não obstante, não é por toda esta discussão que quero entrar.
Quero desde logo desafiar o leitor a fazer uma pesquisa pelos nossos órgãos de comunicação social locais, dentro de cada ilha, de âmbito regional e nacional. De preferência, mais do que um de cada âmbito. Aquilo que encontramos são notícias de dois tipos: redigidas pela redação ou comunicados de entidades, aos quais a redação poderá dar uns retoques. Ou seja, jornalismo feito integralmente pela redação ou uma reprodução daquilo que lhe chega – neste último grupo incluem-se as notícias da LUSA. Aquilo que nos apercebemos é que à medida que nos aproximamos do âmbito local, os comunicados ganham força. O trabalho original fica cada vez mais condicionado a eventos que acontecem na comunidade. O jornalismo de investigação, aquele que tem por objeto chegar ao fundo das fontes – que vai além do comunicado, que o tenta verificar – é quase exclusivamente feito só a nível nacional.
Isto tem uma razão muito simples: quanto mais nos aproximamos do local menos dinheiro há, mais pequena é a redação. Assim sendo, a sobrevivência tem de ser através da informação que é fornecida pelos comunicados de imprensa e fontes jornalísticas como a LUSA. Na verdade, o próprio Estado financia a comunicação social, incluindo privada, em grande medida – algo imprescindível para a sua existência. Só nos Açores, o Governo Regional tem orçamentados 840000€ de apoio aos media. [1] Permitam-me uma nota sobre o apoio regional à comunicação social: da pesquisa que fiz, não encontrei as entidades a quem foram atribuídos apoios, informação até 2020 disponível.
Esta carência pelo jornalismo de investigação ao nível local e regional, algo discutido no I Congresso dos Jornalistas dos Açores [2], só acaba por ser colmatada politicamente pelo trabalho partidário. Lembro exemplo do Bloco sobre o Faria e Castro. [3] Mas não chega: precisamos de vozes sobre várias áreas em vários quadrantes, os olhos em abono da transparência.
[1] https://portal.azores.gov.pt/documents/36227/d2ea411f-db8e-260d-db78-08e24e61de3a