Quem pede armas não colhe coesão

Como era de esperar, a proposta de orçamento da União Europeia para o período 2028-2034 vem carregada de cortes e centralização, disfarçada de simplificação, nas políticas europeias que mais importam ao nosso país: as políticas de coesão, as políticas ambientais, as políticas para aagricultura e para os assuntos do mar.

As críticas não se fizeram esperar, vindas do Parlamento Europeu, de diversos Estados-Membros e vários partidos políticos.

Nada disto é surpreendente. Aliás, era mais do que esperado. O que é surpreendente é que muitos dos que criticam a proposta defendem precisamente o que deu legitimidade à Comissão Europeia para a apresentar: a corrida às armas.

Quem vendeu a ideia de que era possível compatibilizar a corrida às armas na UE com a manutenção de políticas de coesão enganou as pessoas.

Quem defendeu investimentos em segurança e defesa nos Açores como forma de tirar partido da corrida às armas estava a trocar uma política segura e central para o nosso desenvolvimento — a política de coesão no seu sentido mais lato — por um unicórnio.

Ainda este mês, o presidente do Governo Regional, em Bruxelas, ao mesmo tempo que defendia a coesão e as políticas para as regiões ultraperiféricas, defendia também “a necessidade de reforçar o investimento europeu em áreas estratégicas como a segurança (...)”.

Por esta altura, já era mais do que claro que o que aí vinha não era nenhum reforço da coesão, nenhum novo programa de apoio aos transportes para os Açores (POSEI Transportes) ou reforço do POSEI. O que Bolieiro fez foi apoiar a política que leva aos cortes. Isso só demonstra que o alinhamento com a corrida às armas é um erro brutal.

A corrida às armas tem no orçamento europeu uma das suas etapas trágicas. Outras são humilhantes, como o compromisso dos países europeus da NATO em gastar 5% do PIB em defesa e, mais recentemente, o acordo de tarifas da UE com Trump que, para além de um aumento brutal nas tarifas, ainda prevê a compra de 640  mil milhões de euros em energia (e armas, segundo Trump) aos EUA. Uma suprema humilhação e um doloroso episódio de subserviência europeia a Trump.

A ideia de que Portugal e os Açores ganhariam mundos e fundos da corrida às armas durou menos do que a validade de um iogurte açoriano. A corrida às armas é, acima de tudo, um tributo aos EUA e a Trump.

Nós ficamos a ver aviões nas Lajes.