Quem tem medo do drag?

Há já algum tempo que não fazia um daqueles artigos, pessoais?, sobre temas muito estranhos. Hoje isso fica resolvido. Durante a semana passada passei por uma longa constipação que me atirou para a cama e para o sofá, sem grande capacidade de trabalho. Não obstante, no sábado de manhã deparei-me com a nova música de Troye Sivan, «One of your girls». [1] Esta foi a raiz das várias questões que se seguiram.

A música em si versa sobre a dolorosa e não rara realidade de gays se apaixonarem por héteros, a melodia fica no ouvido, não sendo particularmente ousada. Julgo que o grande impacto advém do videoclipe. No vídeo, numa primeira parte, temos a filmagem de vários homens, entre eles Troye Sivan, que têm um interesse romântico no Ross Lynch (uma estrela-adolescente de há dez anos na Disney). Há uma evolução para só o cantor e o ator serem os protagonistas, estando o primeiro a fazer drag (ou seja, adotar a expressão que associamos à mulher, desde a roupa, maquilhagem à postura). Neste contexto, o que se pretende é mostrar a submissão do sujeito lírico à paixão proibida que sente.

O que mais me tocou foi justamente contactar com esse ato inesperado de drag: os contactos anteriores com essa atividade foram sempre circunstanciais, onde já contava com a sua presença, como ao ver RuPaul's Drag Race. Apesar de nunca me ter manifestado crítico ou desgostado, ao saber ao que ia, os meus preconceitos eram acionados, levando a uma homofobia internalizada – nomeadamente sobre homens homossexuais socialmente afeminados. Aqui, apanho desprevenido, vi-me confrontado com uma nova realidade que me cativou imenso.

As questões pessoais que se despertaram com este encantamento resultaram em questionar se não seria bissexual: aquela pessoa está a representar a forma como vemos uma mulher. Vendo outros exemplos do tipo (até para saciar questões mais sociológicas) percebi que a atração não era sexual, mas antes uma experiência estética, como quando olhamos para o Jardim das Delícias Terrenas de Bosch. Despido do preconceito, percebi que era arte o que me chegava.

Encontrei um artigo deste ano [2] do vencedor doprémio «Pulitzerpara a crítica» onde é abordada a questão estética e a relação com as políticas conservadoras (e autoritárias) que têm proliferado nos Estados Unidos da América. O ponto principal é que drag é uma forma intrinsecamente antipatriarcal, que vai contra a elite dominante e, por isso, um alvo a abater a bem da estabilidade do poder. O artigo explica muito melhor do que podia aqui deixar esta questão, bem como origens, significado e importância do drag.

Isto deixa-me a porta aberta para o pensamento de uma importante filósofa norte-americana, Judith Butler – publicou em 1990 uma obra basilar sobre o tema. Deixo aqui referência a uma pequena entrevista muito interessante. [3] Para ela, o género é uma construção social (algo que atualmente parece óbvio) – sendo o sexo atribuído à nascença e podendo ser corrigido posteriormente. O género é, na verdade, uma performance, sendo que o que consideramos como sendo um homem ou uma mulher um conjunto de fatores culturais. Masculinidade e feminilidade são performances. Fazer drag é provar isso mesmo: que as categorias somos nós que as colocamos.

Nós podemos escrever-nos a nós próprios.

[1] https://www.youtube.com/watch?v=ZhGl8McrOHo

[2] https://www.latimes.com/entertainment-arts/story/2023-02-22/aesthetics-of-drag-gop-legislature

[3] https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2021/sep/07/judith-butler-interview-gender