A realidade que construímos

O regresso a Santa Maria leva-me sempre, em algum momento, a chegar a uma realização: estamos a perder a oportunidade de sermos o paraíso na Terra. Não só Santa Maria, como todo o arquipélago, algo que é evidente quando finalmente já posso dizer que visitei todas as nossas ilhas açorianas. Longe de apresentar hipérboles gratuitas, permitam-me uma breve reflexão sobre uma nova visão política.

Desde logo, com «política» entendemos a reflexão, deliberação e ação que se concretizam na gestão de recursos, estabelecendo as suas regras e prioridades. É sempre bom deixar claros os termos que utilizamos.

Há que ter em mente que os objetivos políticos que se pretendem obter constituem realidades possíveis de serem inferidas. A política existe para transformar (melhorar) o quotidiano. Assim sendo, por muito abstratas ou teóricas que as discussões possam vir a ser, tanto o seu ponto de partida, como o ponto de chegada têm de ser factos sobre o mundo. Estas frases talvez pareçam senso comum, mas numa arena politizante seria logo rotulado como populista, lembremo-nos que todo o discurso político das últimas décadas criou uma entidade abstrata que é a protagonista de qualquer discussão: a economia. A economia melhorar ou piorar não quer dizer nada, o que importa é perceber na realidade como estão a ser distribuídos os recursos que temos.

Isto não quer dizer, como julgo estar claro, que a discussão política só pode ser sobre buracos na estrada, dinheiro na carteira ou quantidade de voos. O meio pelo qual se faz a política, principalmente em democracia, é um meio teórico. Ensaiam-se cenários à procura do melhor – discute-se antes de agir, logo tem de haver abstração. O que isto significa é que tem de haver lugar para a escolha de princípios, que é como quem diz, ideologia. É isto que os partidos são: plataformas ideológicas. «Eu acho que a dignidade humana é anterior a qualquer coisa» «Eu acho que a minha liberdade é mais importante de salvaguardar que a liberdade coletiva que temos» … Estas pensamentos são uma espécie de função que, em função do problema a ser resolvido, sugere um output, um produto. Não admira que cada partido tenha normalmente soluções distintas. Não admira que seja muitas vezes difícil chegar a um consenso. A aritmética parlamentar é, então, a ferramenta democrática para a decisão. Deste parágrafo espero deixar claro que só alguém muito ingénuo ou demagogo defenderia ser possível falar em política sem falar em ideologia. Quem se afirma sem ideologia, ou está a ser manipulado ou está a esconder algo. Isto não significa que toda a gente tem o seu rótulo ou caixinha bem definidos, mas sim que existem um conjunto de valores que lhes são fundamentais.

O nosso isolamento, o nosso modesto território, as nossas riquezas naturais e as nossas gentes (além do nosso enquadramento legal) constituem uma excelente oportunidade para olharmos para a região como um laboratório. Um espaço onde podemos quebrar radicalmente com as práticas que vemos na televisão espalhadas pelo mundo. Podemos organizar o nosso cantinho como bem entendermos, segundo os valores que entendermos. Ficarmos presos à mesmidade em que estamos há décadas sob o desígnio da estabilidade é perder essa oportunidade.

Podemos ensaiar a autossustentabilidade. É certo que a autossustentabilidade dos nossos antepassados não nos causa grande inveja pelos luxos de que dispomos, mas estamos em 2026 com ferramentas e conhecimentos muito distintos. Podemos curar as nossas injustiças, só é preciso ousar!