Há tanto que se passa e que me parece relevante, que decidi, hoje, fazer uma manta de recortes sobre temas da atualidade: falemos de pântanos políticos no meio do Atlântico, de rendimentos e de lavagem cerebral.
Escrevo este artigo no sábado, quando Nuno Barata anunciou o voto contra o Orçamento e Plano Regionais para 2024. [1] Podemos afirmar com toda a convicção que este Governo morreu. Mantendo-se o cenário tal como está, não haverá qualquer documento para 2024, assumindo o executivo de Bolieiro um papel de gestão corrente. Poderá ainda acontecer poder haver algum acordo de última hora, uma mudança no sentido de voto, mas parece-me que este cenário, na verdade, é o melhor possível para a direita açoriana. Eu até arriscaria dizer que esta coreografia já vinha sendo delineada desde 2020, acordada em compadrio entre os partidos da coligação e do ex-apoio parlamentar.
Mesmo com este fracasso, o governo consegue acabar a legislatura, ou, pelo menos, levar a que as eleições não soem a antecipadas. Frente ao eleitorado, empunhará a taça de chegar ao fim, sendo uma alternativa credível ao PS. Como a memória coletiva tende a ser curta, as tensões, zangas, trafulhices, serão empurradas para debaixo do tapete. Se fôssemos agora a eleições antecipadas, se o governo se demitisse, o eleitorado estaria em contacto direto com a instabilidade.
O mesmo se passa com os ex-parceiros, na verdade: apesar de sem eles não ter sido possível este governo, já no início deste ano decidiram começar a distanciar-se, de forma a poderem disputar o seu respetivo espaço. Tentam manter a energia de 2020, ignorando os seus contributos desastrosos na política executiva – a tal memória curta.
Mas isto não seria possível sem o contributo decisivo de uma pessoa: Marcelo Rebelo de Sousa. O mesmo Presidente que dissolveu a Assembleia da República por o Orçamento ter sido chumbado, apesar do Governo não se ter demitido, é o mesmo que, vendo o mesmo cenário, mas agora na sua área política, não se pronuncia, nem assedia a oposição. Marcelo tem uma agenda muito clara.
O Eurostat divulgou dados sobre rendimento segundo o poder de compra dos países europeus no ano de 2022. [2] Portugal é o sexto país com os rendimentos mais baixos, terceiro da zona Euro. Além disso, a par do sul e este europeus, tem uma desigualdade de rendimento maior do que a média europeia. [3] Esta realidade é ainda mais gritante nos Açores. [4]
Nas poucas palavras que me restam, deixar nota da lavagem cerebral que o governo italiano está a levar a cabo: uma revolução cultural que normaliza a visão fascista. Meloni, que se tenta apresentar como uma moderada, tem levado a cabo um processo de nomeações de ideólogos de si próximos para diretores artísticos, programadores e responsáveis de museus. [5] Que ninguém subestime o poder da cultura.