Quando falamos de alterar o mundo em que vivemos, fica a questão do método, independentemente da meta: como aplicar a mudança? Como é que a mudança se relaciona com o tempo? A nossa utopia, a sociedade a que queremos chegar, é atingível através das instituições já existentes? A evolução precisa de uma rutura que coloca as massas na rua? No fundo, reforma ou revolução?
Este tema ocorre-me no seguimento de uma discussão de cantina, como de costume. Nesta, tive um amigo a tentar demonstrar como o que dizia contradizia o que lhe tinha dito há dois anos – o que facilmente pode acontecer, a mudança de opinião é normal. Neste caso, tinha plena noção da minha coerência, mas a constipação esgotou-me as faculdades mentais. Então agora estou em casa a pensar sobre este assunto, com o objetivo de sintetizar e sistematizar uma visão pessoal sem referências diretas.
Desde logo, penso ser importante perceber que existem várias dimensões associadas à nossa utopia (aqui uso utopia como a sociedade que pretendemos atingir), pelo que pode acontecer que a resposta à questão, reforma ou revolução?, pode ser diferente para cada uma. Estas vertentes mencionadas resumem-se em três: política, economia e social.
A vertente política consiste na organização do poder, ou seja, nas estruturas e instituições que se consideram legítimas para tomar decisões. Monarquia, oligarquia, tecnocracia, anarquia, democracia (direta, representativa,…),… são tudo possibilidades de regimes que se diferenciam pela forma como representam o poder.
O lado económico consiste na forma como se distribuem os recursos. O sentido comum é pensar no dinheiro como expoente máximo do recurso, sendo isso, claro, resultado da circunstância em que vivemos. Não obstante, o dinheiro serve, justamente, para controlar a obtenção de recursos, sejam produtos ou serviços.
A dimensão social relaciona-se com a carga cultural, muito ligada também a questões de ética. Lutas como feminismo e ativismo queer enquadram a sua ação aqui. Trata-se, portanto, da forma como as pessoas se veem e se relacionam entre si, bem como a perceção do eu.
Apresentadas estas definições tentarei defender a dinâmica como me parece que cada uma deva ser modificada:
A parte política é aquela que agenda e delibera as decisões, sendo que, enquanto fonte de poder, condiciona as outras dimensões. A questão de como distribuir o poder é importantíssima numa sociedade, sendo necessário um forte alinhamento dos cidadãos. Justamente por isso, parece-me importantíssimo que as mudanças de regime sejam manifestadas pelas massas. Se se mudou de regime sem uma revolução, existe uma forte possibilidade do anterior regime viver de alguma forma. A utilização de referendos seria a forma mais racional e pacífica de consumar a alteração do poder – sendo muitas vezes feito como validação de alterações aos sistemas eleitorais.
A vertente económica seria a queria mais vantagens a ser mudada por uma revolução, por ser a que tem um impacto material na vida quotidiana das pessoas. Contudo a atual burocracia, complexidade e desigualdade acabam por a tornar insustentável. As reformas progressivas serão então mais prudentes.
No campo do social percebemos que existe uma inerência cultural: o pensamento é dependente do tempo, havendo uma evolução muito visível. O que hoje consideramos certo, amanhã pode ser visto como questionável. É necessário ter um espírito reformador que permita a evolução cultural.
Por fim, notemos que estas dimensões estão interligadas, sendo esta anatomização um exercício teórico.