Rescaldando

Há uma semana e um par de dias tivemos as eleições autárquicas. Na semana passada, atrasado, abordei a flotilha, esta semana, atrasado, falo sobre as autárquicas. Bem sei que este foco na questão do atraso pode soar repetitivo, mas é importante: num mundo em que o espaço público discute fervorosamente um assunto e existe pelo menos menos um assunto novo a cada dia, acabamos por refletir superficialmente e abruptamente. Se um assunto não tem seguimento, não é possível pensar melhor, ter mais informação, mais modos de a relacionar. Refletir depois de um tema passar da ordem do dia é resistir perante a indiferença, o cinismo, e mesmo a hipocrisia que o é por inércia. Já aqui o mencionei e torno a mencionar: é extremamente difícil na maioria das semanas escolher um tema, por haver tantas pontas por onde se pagar. Com tanta dispersão, não chegamos a tudo. Pior, começamos pelos fenómenos mais bizarros e polémicos, ótimos para servir de isco e distrair-nos sobre aquilo que muda estruturalmente as nossas vidas (mesmo sendo essas mudanças cada vez mais evidentes). Para rematar esta nota inicial, talvez seja importante tranquilizar dizendo que não é obrigatório termos uma posição sobre tudo. Isso exigiria haver tempo para estudar algo e tempo para refletir sobre esse algo. O espírito crítico tem como corolário a honestidade intelectual. Temos de ser capazes de perceber os nossos limites. Para comentários sem pertinência estão as redes sociais cheias. Servem para quê? Fazer alguém sentir-se superior? Sentir que se fez algo apesar da ação ser inconsequente? Neste sentido, parece até que as redes sociais substituíram os portais de queixa, o primeiro instinto não é falar com quem de direito, é ir para as redes sociais - o que desresponsabiliza as instituições que existem para dar seguimento a esses casos. Passemos às autárquicas. Mais uma vez, discorrerei na perspetiva de ser candidato, uma perspetiva que é preciso atender para se poder pensar, de facto, a democracia representativa. A noite eleitoral é a pior parte. Sabemos que fizemos o melhor que podíamos nas condições que tínhamos, que podia ter sido feito mais e melhor, mas que a nossa consciência está tranquila. Sabemos também, contudo, que esse trabalho não é o único fator. Candidaturas sem campanha têm ótimos resultados e outras vêm o seu esforço sem resultado. Não se trata de valorizar o esforço ou de injustiça, isso não cabe no vocabulário eleitoral de uma democracia representativa, trata-se da frustração de ver que são fatores externos às candidaturas, às suas propostas e candidatos, que influenciam o voto. A noite eleitoral é quando percebemos se temos sorte. O tipo de sorte que é cheio de coincidências, quem diria. Talvez no processo de campanha para as eleições locais a fonte de maior exasperação seja a contradição a que constantemente os eleitores se submetem: por um lado votam-se em pessoas e não em partidos, por outro, há pessoas em partidos errados, por serem considerados mais pequenos. Estamos em piloto automático até nos processos democráticos, que nem nos apercebemos dissonâncias cognitivas em nós. Por fim, a machadada final. Quando fui votar, ouvi de um homem atrás de mim: se houver muita fila, vou-me embora, estar aqui é um favor que faço. Quando o valor que damos ao voto é um par de dança, então o valor da democracia é inexistente, uma fachada. Este é um terreno fértil para os discursos daqueles que nos querem de cabeça curva. Há muitos que concordam com isso, principalmente aqueles que passam a vida a ostracizar os mais vulneráveis das nossas comunidades e, por isso, já têm a própria cabeça curvada sem o saberem.