Podem-me desde já chamar de dramático, aceito-o completamente, mas isso não significa que o drama não se concretize. Infelizmente, cada vez se olha para o mundo e se nota indícios de um retrocesso, apesar de estarmos no melhor ponto da História, até agora, em relação à esmagadora maioria dos parâmetros. Hoje venho falar-vos da eleição para uma Associação de Estudantes. Sim, a minha enunciação do inferno na Terra vem de uma eleição para uma Associação de Estudantes.
Cena do crime: Porto, 2022. Fui aluno de Física durante dois anos, tendo andado na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) durante esse período e cultivado a esmagadora maioria das amizades que tenho. Apesar de estar na faculdade que com a FCUP partilha a estrada, a FLUP, ainda continuo com muita informação sobre o que vem acontecendo nessa minha antiga faculdade. Ora, como é habitual, nesta altura do ano temos as eleições para as associações de estudantes, sendo que na FCUP normalmente temos listas únicas (tal como acaba por se alastrar para eleições de órgãos da faculdade onde se elege estudantes). No entanto, este ano deu-se o caso de haver duas listas candidatas, o que não acontecia há cerca de 4 anos. Ou seja, uma lista de continuidade, mantendo pessoas que já estavam na atual e a orientação programática, e uma de estudantes que decidiram criar uma alternativa.
Desde logo se teve uma grande mudança a dinâmica de campanha, havendo uma maior notoriedade do processo eleitoral. A lista de «oposição» sabia desde logo que tinha um trabalho de afirmação a fazer, apostando em posts informativos, pelo menos um abaixo-assinado sobre assuntos que dizem respeito ao quotidiano dos estudantes, marcando presença durante certos intervalos nos vários departamentos,… A lista de continuidade ficou presa à sua lógica de apresentar pessoas e tirar fotografias com uma moldura física, numa lógica de campanha de lista única. Ambas tinham evidentemente um plano eleitoral. A principal reivindicação da lista oponente em relação à continuidade era a Associação ter um papel mais ativo na representação e defesa dos estudantes, tomando posições sobre propinas, habitação, estudantes internacionais,… Sobre estes temas tinham uma visão específica e não uma frase genérica.
Aquele que foi o ponto catastrófico para a minha esperança no mundo ocorreu no debate: o candidato a presidente da lista de continuidade, confrontado com a posição feminista da lista oponente, afirma que é «tanto afeminista como amachista». A situação chegou-me por um tweet do elemento da lista contrária, mas há cerca de 50 testemunhas e a situação já foi mais que confirmada. Esta afirmação dele foi já em jeito de desculpa por antes se ter dito não feminista.
Há aqui dois grandes problemas: por um lado, a ignorância sobre um tema que supostamente se dá nas escolas; por outro, a tentativa de ter uma neutralidade extrema.
Feminismo é a busca pela igualdade de direitos entre todas as pessoas. Ponto.
A neutralidade é diferente de parcialidade. Estamos a falar de um direito humano, a igualdade de género, reconhecido na nossa Constituição e mesmo nos estatutos da AEFCUP. As listas não tinham de falar de feminismo, mas se falaram, não há desculpa para não se afirmarem como tal. Como é que esta lista reagiria num caso de discriminação?
Isto é a raiz. As pessoas que vão ser os mestres e doutores de amanhã, preferem a via da negligência. Hoje são afeministas. Amanhã aestudantes, depois aAssociação de estudantes. Quando notarmos, somos uma aSociedade.