Sair do beco sem saída: por um acordo TAP–SATA

A avaliação do júri à proposta do consórcio Atlantic Connect Group para a aquisição da SATA Internacional e a recente entrevista do presidente do grupo SATA colocam, definitivamente, uma pedra sobre o processo de privatização em curso.

Os pormenores agora conhecidos são escandalosos e deveriam envergonhar quem alimentou esta ilusão durante anos.

Já sabíamos que o consórcio exigia que os contribuintes ficassem com todo o passivo da SATA — incluindo o custo do aluguer dos aviões — e que seria a Região a assumir a capitalização futura da empresa e eventuais prejuízos.

Mas ficamos agora a saber que o consórcio não pretendia investir um único cêntimo na empresa e, ainda por cima, exigia que a Região continuasse durante anos a pagar a manutenção dos aviões. Ficamos também a saber que só aceitava ficar com pilotos e assistentes de bordo, deixando todos os restantes trabalhadores na SATA Holding.

Parece uma piada de mau gosto. É pura privataria.

Quando o Governo Regional afirmou que a única alternativa à privatização era o encerramento da empresa, deu ao consórcio a mensagem de que venderia a qualquer preço. É uma posição de desespero absoluto que destrói qualquer capacidade negocial. Quem age assim demonstra não ter condições para governar seja o que for.

Insistir no erro — agora sob a forma de negociação direta — é hipotecar definitivamente qualquer esperança de salvar a SATA Internacional e, talvez, todo o grupo, que está a ser desmantelado.

Em 2020, quando a situação da SATA Internacional se tornava insustentável, sem escala nem capacidade financeira para garantir a sua recuperação, o Bloco propôs negociar com o Governo da República uma parceria estratégica entre a SATA Internacional e a TAP. Na altura, governava o PS que, em conjunto com a direita, recusou essa solução. Essa era a alternativa à privatização e à perda de autonomia sobre a mobilidade aérea para o exterior da Região.

Seis anos depois, a direita governa e, com o apoio do PS e de todos os partidos com assento parlamentar — exceto o Bloco — continua a insistir na privatização da SATA Internacional. Se tivéssemos avançado para o acordo com a TAP em 2020, talvez hoje não estivéssemos neste beco sem saída.

Para sair de um beco sem saída, a única solução é recuar. É preciso fazê-lo já e reabrir a negociação com a TAP, como propusemos em 2020. Só não será possível se Bolieiro e Montenegro não quiserem.