Quando se abordam as questões ideológicas, a geografia da nossa identidade política, somos confrontados com referenciais baseados em certas dimensões, sendo que a bússola mais comum se baseia nos eixos económico e social. Olhando para o nosso quotidiano, a vertente económica parece ganhar uma clara vantagem em termos de importância. Ora, isto não é mais do que o reflexo de crescermos já num sistema bem definido.
O facto de nos ser dito desde a nossa infância que precisamos de um bom emprego para ter dinheiro e ter uma vida estável é sintomático do papel central que a moeda ocupa na nossa sociedade. O esforço que empenhamos, primeiro nos estudos e depois no trabalho, é para recebermos papel e metal. Queremos poder pagar a renda, a comida, as despesas de saúde e educação, queremos estabilidade para a nossa família. O conceito de economia torna-se sagrado. É, portanto, natural que olhemos para a política e se categorize o pensamento em função da perspetiva com que aborda a economia.
Não quer isto dizer, no entanto, que o eixo social não interesse. Se ao falarmos de economia, estamos a falar de bem-estar, também é certo que o abordamos por via das liberdades individuais. No nosso quotidiano é evidente a existência de uma componente ideológica social muito forte. Desde logo temos a igualdade de oportunidades minada por preconceitos que levam a discriminações. A desigualdade de género ainda é um fenómeno bastante evidente, resultado de uma sociedade que tem em si enraizada a imagem de uma mulher recatada. Em Portugal, as mulheres ganham, em média, cerca de menos 11% que os homens, segundo dados de 2020. Mais de metade da população portuguesa são mulheres. Se olharmos para a Pordata, vemos que desde que eles têm dados, 1960, que este facto mantém a sua verdade. Num país constituído maioritariamente por mulheres, estas ainda são discriminadas. Mas não só. Num país maioritariamente constituído por mulheres, a violência doméstica faz dezenas de vítimas mortais todos os anos, resultando em horríveis feminicídios.
Os assuntos sociais são do nosso dia-a-dia e não dizem respeito só às minorias. A vertente social da ideologia política assegura as liberdades individuais, bem como os direitos. É ela que indica a nossa perspetiva sobre a igualdade dessas liberdades, sobre a moralidade de atos como o aborto ou relações entre pessoas do mesmo sexo. Estas temáticas ora dizem respeito a maiorias, ora a minorias. Todos nós estamos nelas inseridos. As questões da nossa privacidade, muito por via da segurança e defesa, estão intimamente relacionadas com esta vertente.
Na última semana temos assistido a um conjunto de artigos a marcar a agenda mediática portuguesa sobre as questões trans. Mais do que denunciar a transfobia, aquilo que quero alertar é para o caráter despersonalizante de como eles foram escritos. Falou-se de ideologias e causas como se elas não representassem pessoas. Agitam-se bandeiras sobre ideologia de género, como se não falássemos de pessoas de carne e osso que todos os dias veem a sua existência dificultada por uma sociedade que ainda não as conseguiu incluir dignamente.
É possível falarmos de aborto olhando simplesmente para um útero, sem pensar sequer na pessoa que o porta? É completamente desumano. Esta estratégia de pegarmos nas dores dos outros e trabalhá-las como melhor apraz a nossa agenda, ignorando por completo o sofrimento de pessoas reais é absolutamente repugnável e só merece o nosso desprezo.
Haja empatia!