Com o passar do tempo, a par de avanços científicos e tecnológicos, assistimos ao surgimento de novas profissões, novas condições de trabalho. A exponencial digitalização do quotidiano já permite a trabalhadores desempenharem as suas competências a partir da sua casa. A pandemia foi o empurrão que faltava para popularizar esta forma de trabalho. Na verdade, nem tem de ser a partir de casa. Pode ser de qualquer lado, desde que haja acesso à internet. Assim surgem os nómadas digitais: um conjunto de pessoas que só precisa de WiFi e computador para trabalhar, sendo, regra geral, bem remunerados.
Os nómadas digitais são pessoas que escolhem ir variando de sítio, como melhor lhes convém. Porque não trabalhar num sítio com uma praia à frente? Não se trata de turismo, mas está lá perto. Cada vez mais destino se preparam e promovem como locais que podem acolher com condições estes trabalhadores. A Madeira, por exemplo, já dispõe de infraestrutura que permite espaços com excelentes acessibilidades digitais, para onde as pessoas podem escolher trabalhar enquanto se encontram na ilha. Este projeto madeirense, que conta com o apoio do Governo Regional, conta com estadias que variam entre um e seis meses.
Para conseguirmos ser um polo agregador desses trabalhadores podemos estabelecer uma rede de cooperação entre alojamentos, restaurantes, agentes turísticos, locais de partilha de espaços de trabalho,… Toda uma panóplia de pacotes já podem ser pré-feitos. Desta forma, existe uma dinâmica na economia local além da sazonalidade que marca grande parte do turismo nos Açores, bem como há o estímulo de uma atividade cultural mais intensa e continuada.
Enquanto investigava para escrever este artigo, descobri que a autarquia da Ribeira Grande lançou estes dias um espaço online a promover o município neste contexto (https://www.digitalnomadsrg.pt/). Segundo me apercebi, apesar de ainda faltar informação sobre que restaurantes e alojamentos, a ideia é estes oferecerem descontos. Esta plataforma serve como promoção do destino e ferramenta de comunicação para auxiliar no estabelecimento dos nómadas.
Também o Governo Regional se pronunciou sobre o assunto em junho de 2021, tendo a, então, Secretária Regional Susete Amaro dado a conhecer a intenção de celebração de um protocolo entre a Região e a Madeira. Em maio deste ano, o PS avançou com uma proposta na Assembleia Regional, depois de quase um ano sem resultados visíveis.
Consigo imaginar este projeto também como uma forma de reabilitação de infraestrutura, como a Estação LORAN em Santa Maria: um conjunto de edifícios muito degradados com valor histórico e localizados numa zona mais isolada e turisticamente apetecível para quem busca um ambiente mais rural.
Não obstante a toda a vertente cor-de-rosa do projeto, convém também abordar a questão do próprio teletrabalho, ressalvando a necessidade de uma legislação clara, que permita regular a fronteira entre o trabalho e o prazer, de forma a não cair da exploração abusiva do trabalhador. Sobre esta matéria, Portugal foi um país pioneiro em 2021, aprovando a proposta que garante o «direito ao descanso», ou seja, impede o empregador de contactar fora do horário de trabalho sem motivo maior. Esta alteração consta no Código de Trabalho que até essa altura não previa a realização do teletrabalho. Houve um cuidado para garantir a privacidade ou os direitos sindicais, mas ainda faltam alguns passos, como garantir o subsídio de refeição.