Saúde extraordinária

No dia 12 de maio celebrou-se o Dia Internacional do Enfermeiro, uma data que serve para uma reflexão sobre a valorização destes profissionais e uma forma de gratidão pelo serviço de excelência que prestam no seu ato de cuidar.

Segundo a Ordem dos Enfermeiros-Açores, faltam 450 enfermeiros na região, um problema que será difícil resolver rapidamente uma vez que por ano apenas se formam cerca de 80 enfermeiros. Esta carência tem consequências, nomeadamente no número de horas a mais que estes profissionais trabalham.

Temos enfermeiros a trabalhar 40% a mais do seu horário de trabalho, o que tem implicações na qualidade da prestação dos cuidados e no bem-estar destes profissionais, que veem assim a sua vida familiar e pessoal ficar para trás.

Não basta falar na prevenção de burnout, é preciso implementar respostas para garantir que não se ultrapasse o limite físico, mental e emocional, e isto passa pelo investimento em mais formação, melhores condições de trabalho e remuneratórias para  atrair e fixar enfermeiros na região.

Foi, também, recentemente discutida no parlamento dos Açores a proposta do PAN que prevê um regime de prestação de trabalho médico extraordinário nos serviços de urgência e de atendimento permanente das unidades de Saúde de ilha com serviço de urgência. O Bloco votou contra esta proposta, que vai incentivar ao abuso de horas extraordinárias de trabalho médico nos serviços de urgência para além do limite legalmente permitido.

Romper o acordo coletivo de trabalho e permitir horas extraordinárias para além do limite legal é vergonhoso e não é o caminho que queremos para o nosso SRS.

O trabalho extraordinário deve ser encarado como exceção, mas com a aprovação desta proposta abriu-se a porta para ser feito sem limites.

Numa região onde abundam as horas extraordinárias exigidas aos nossos profissionais de saúde e onde todos os outros partidos se uniram para potenciar esta situação, parece já não interessar o tema do burnout e das consequências do excesso de trabalho.

O Bloco de Esquerda considera que a solução para o problema da falta de médicos no Serviço Regional de Saúde deve passar pela criação de um regime de exclusividade facultativo que ofereça condições atrativas para os médicos que optem por este regime, como o aumento do salário base em 40%, mais acesso a formação, e redução de horário sem penalizações a partir dos 50 anos.

Se queremos mais profissionais de saúde, então parem de lhes dizer para vestir a camisola, que façam horas sem limite, que deixem de lado a sua vida pessoal e familiar e que façam parte deste sistema catalisador de exaustão.