A segunda volta

Várias vezes se disse que estas autárquicas estão a ser consideradas uma segunda volta das regionais do ano passado. A realidade é justamente essa.

A direita açoriana, depois das regionais, qual manta de retalhos, desesperada, coseu-se à força para formar governo, legitimando, até, a extrema-direita. É exatamente por saberem que essa solução é forçada que tentam justificá-la a todo o custo. É por isso mesmo que os partidos da coligação se uniram para enfrentar estas autárquicas.

Em 2021 temos 8 coligações PPD/PSD.CDS-PP.PPM a concorrer às Câmara Municipais açorianas. Sendo que onde o PPD/PSD concorre isolado, nem CDS-PP, nem PPM apresentam candidatos. Existem, até, apoios informais, incluindo indicação de representantes do PPM e CDS-PP nas listas do PPD/PSD, onde estes não concorrem em coligação. Em 2017 houve 1 coligação deste tipo e não continha o PPM. Trata-se de uma grande mudança. 

Que não se julgue que esta mudança vem porque agora estes partidos comunicam entre si. A minha estranheza é justamente porque estas coligações são extremamente frequentes de norte a sul do país, só os Açores é que pareciam destoar. Até nas legislativas de 2015, em todos os distritos continentais foi acolhida a PàF, nos Açores não. O PPD/PSD concorreu isolado, sendo um dos adversários, até, uma coligação: CDS-PP.PPM.

Portanto, não nos podemos iludir: o fenómeno de coligações formais e informais que estamos a ver agora não é inocente. É uma estratégia para validar a constituição do atual executivo.

Que se note que nada tenho contra o facto de sermos governados pela coligação no poder: o meu problema está no processo que levou a essa solução e à inclusão do CHEGA, partido abertamente promotor de ódio, nos acordos.

Quer queiramos, quer não, estas autárquicas vão ser analisadas como sendo a segunda volta das regionais 2020. Se faz sentido? Nem um pouco. Trata-se de realidades completamente diferentes. Os objetos destas duas eleições têm competências distintas, apesar de haver alguma sobreposição. A própria forma do voto é diferente: agora somos confrontados com três boletins de voto (Câmara Municipal, Assembleia Municipal e Assembleias de Freguesia) ao invés de um das regionais (Assembleia Legislativa Regional).

Não obstante, estou curioso para ver os resultados desta manta de retalhos: será que vai funcionar? As pessoas já provaram que fazem uma clara distinção entre os vários órgãos. O fator candidato conta muito por via da proximidade. Será que a direita unida vale mais do que a direita dividida? Será que as pessoas irão penalizar ou beneficiar em função da jogada da coligação, com claros interesses partidários?

No dia 26 de setembro saberemos se o plano funcionou. Se os dramas locais do vai ou não haver coligação compensaram. Em Santa Maria várias pessoas de valor do PPD/PSD demitiram-se dos órgãos que ocupavam e recusaram-se a recandidatar. Foi um duro golpe para quem via a necessidade de rejuvenescer e revitalizar o partido. Escorreram as publicações do PPM a afirmar a sua independência e, no final de contas, acabam a integrar informalmente as listas. Avanços e recuos foram dados com perdas pelo caminho.

Que 26 de setembro nos esclareça sobre como os açorianos e as açorianas veem o oportunismo: votando em quem verdadeiramente acreditam, sem cair na necessidade de legitimar algo que nem está em discussão.