Permitam-me a inconfidência de uma tradição familiar: todos os anos costumamos fazer uma viagem. Segundo a lógica da minha mãe, viver em geografias altamente circunscritas, suscita a necessidade de uma maior viagem a realidades mais diante daquela. Normalmente as capitais europeias são o destino predileto. Isto não significa que se desvaloriza o turismo nacional, aliás, este ano a decisão foi visitar outras ilhas do nosso arquipélago – aquelas que eu ainda não tinha conhecido. Reconheço a lógica subjacente ao desejo de aproveitar oportunidades raras para experiências mais intensas, um contacto maior com o radicalmente diferente.
Vivendo eu, durante uns anos, numa realidade distinta, onde me é possível de um modo mais ou menos económico, com alguma realidade, através de carro, autocarro ou comboio, visitar outras paisagens portuguesas. Infelizmente, só nestes últimos tempos tenho aproveitado essas circunstâncias. Aliás, escrevo este texto depois de uma viagem de carro com amigos, onde, a partir do Porto, seguimos até Vila Nova de Foz Côa, pernoitámos, e no dia seguinte fizemos o trilho do Camino de Hierro. Tanto na ida como na volta, foi ainda possível conhecer novas paragens.
Enquanto estava no carro, olhei para uma aldeia que se encontrava a alguma distância e indaguei-me: como explicaria o que estava a ver? Não tirei fotografia, não era particularmente bonita (pelo menos na vista à distância), não registei o local. De manhã, contudo, atravessei outras aldeias cujo nome me recordo e que, retrospetivamente se me colocam a mesma questão, como por exemplo Maçores e Açoreira – nomes curiosos.
Talvez consiga colocar em perspetiva a questão: como posso fazer sentir nos meus estudantes o isolamento que populações vivem quotidianamente? Como fazer com que um estudante que habita cimento e alcatrão, que anda de autocarro público para a escola, se possa colocar na perspetiva de um colega que vive entre campos, dependendo dos seus pés e dos seus pais para se movimentar. É claro que o inverso também é pertinente. Eu próprio sou testemunha em primeira mão disso mesmo: pensar que há pessoas que todas as manhãs têm duas horas de transportes públicos para ir estudar ou trabalhar e repetem a sequência opostamente ao fim do dia, é de uma estranheza imensa. Eu cresci a vinte minutos a pé de tudo.
Porque é que isto nos deve importar? Desde logo, pela exigência de empatia e pela necessidade premente de uma análise contextual. Quando reduzimos o território a dados estatísticos ou diretrizes burocráticas traçadas em gabinetes distantes, esquecemos a dimensão fenoménica do espaço: o modo como a distância molda a experiência vivida, a mundividência e até as expetativas de futuro de cada indivíduo. A insularidade não é uma exclusividade arquipelágica; há ilhas sociais e geográficas espalhadas pelo continente, da mesma forma que há periferias esquecidas dentro das nossas próprias ilhas. Educar para a cidadania passa, inevitavelmente, por desconstruir este provincianismo de perspetiva, ensinando a reconhecer que a nossa vivência particular não esgota a medida de todas as coisas – tendo por base tantos as suas clivagens, como aproximações (ainda há duas semanas fiz isso com as nossas ilhas).
A verdadeira coesão territorial começa no esforço ético de habitar o ponto de vista do outro. Sem este exercício contínuo de descentramento, a discussão política continuará refém de abstrações e soluções padronizadas que ignoram quem vive o quotidiano dos lugares.