Ser estudante deslocado açoriano

Os problemas dos estudantes deslocados são intuitivos se despendermos algum tempo a raciocinar, mas nada como ser um estudante deslocado para os enunciar.

Qualquer jovem que saia da sua ilha para estudar, quer seja para um polo da Universidade dos Açores, quer seja para fora da região, enfrenta um obstáculo particularmente relevante: a habitação. Trata-se de algo básico, mas que acarreta uma grande despesa. Daquela que é a realidade que conheço, no Porto, pago por um quarto o mesmo que alguém paga por um apartamento T2 em Santa Maria. As residências universitárias são a salvação de muitos estudantes. É preciso não esquecer que ainda neste tema temos os custos associados a água, luz e gás. Aquele que é o Prémio de Mérito de Ingresso no Ensino Superior do GRA acaba por ser uma ajuda de custos para esgotar nos primeiros meses nestas despesas.

À habitação acrescem as despesas com a alimentação, que acabam por sair mais caro às famílias, e com o material pedagógico. Tendo em conta a nossa condição insular, ainda existe aqui um custo associado às viagens aéreas, onde, felizmente, já existe um tarifário próprio para estudantes. Não nos podemos esquecer ainda das propinas que tardam em voltar a ser abolidas.

Com esta descrição o que quero dizer é simples: não é barato ter um jovem a estudar. Que se note que diz isto um privilegiado que não tem de ser trabalhador-estudante. Quantos são os jovens açorianos que poderão não ir para o ensino superior porque não têm condições financeiras? Permitam-me aproveitar o fim deste parágrafo para demonstrar o meu respeito por aquelas famílias que fazem um grande esforço para darem o melhor futuro possível aos seus filhos.

Esta dimensão financeira é aquela que mais sobressai, no entanto existe uma abordagem social que deve ser tida em conta e que com a Covid se tornou mais premente.

Os jovens açorianos, até pelo que já foi dito, não têm a possibilidade de voltar a casa com frequência, sendo que, na maioria dos casos, voltam durante as férias. Desta forma, ficam sozinhos, sem o conforto de casa durante meses num local desconhecido. Este novo contexto pode ser violento. É claro que a longo prazo podemos ver vantagens nesta independência quase forçada, mas a verdade é que os primeiros tempos podem custar.

Para colmatar este isolamento, a solução pode passar pelo estabelecimento de amizades. Esta é uma estratégia sempre vencedora, independentemente do paradigma, no entanto não nos esqueçamos que a maioria dos estudantes consegue ir para casa aos fins-de-semana, enquanto os açorianos continuam deslocados. Esta realidade é ainda pior com a Covid, porque faz com que as saídas, de estudo ou lazer, sejam mais raras e impossibilita que haja uma verdadeira integração no meio académico, formando-se pequenas bolhas de estudantes que acabam por não ter a oportunidade de se conhecer entre si.

A estas questões, por via da Covid, acresce um ano pedagógico atípico que submeteu todos os estudantes a uma necessidade de se adaptarem. Em especial durante os confinamentos, foram escassos os conteúdos que foram verdadeiramente aprendidos. Falo por experiência própria. O ensino online tem vantagens, mas promove uma muito maior desconcentração. Temos de saber usar as ferramentas digitais, mas com um ambiente físico associado.

Depois de uma intensa época de exames estamos, estudantes açorianos, a regressar a casa para recarregar baterias e tentar sarar a nossa saúde mental.