A seriedade (e os adultos)

Entre as deambulações sobre a pós-verdade, o bullshit, as fake news, convém não nos perdermos na interpretação desta realidade em que vivemos. Estes novos conceitos e talvez uma abordagem que parece demasiado teorizantes são uma forma de tentar complexificar as nossas grelhas de interpretação de forma a precisar aquilo que vivemos e discernir caminhos. No meio disso é fácil alguém que esteja ligeiramente descentrado do debate, sentir-se deslocado e a leste daquilo que se diz. Permitam-me simplificar estas questões desembocando-as num conceito que não deixará dúvidas: seriedade.
Seriedade como quem diz: integridade de caráter, ou ser sério, ou seja, que age com dignidade, que é sincero, honesto, real. Muitas destas palavras escondem uma imensidão de perguntas, mas fiquemo-nos pela imagem do senso comum, que, aliás, é a que confere estes significados de dicionário. O que nos falta é, portanto, seriedade. Falta-nos dignidade e sinceridade. Que se note brevemente que aqui não coloquei seriedade como algo que se opõe ao que é risonho, muito pelo contrário, mas deixemos essa questão de lado por hoje.
Há algum tempo, mas pouco, o CHEGA publicou um vídeo no qual perguntava a transeuntes lisboetas se concordavam com a possibilidade de imigração e depois questionavam se esses mesmos interlocutores acolheriam esses imigrantes nas suas casas. Esse vídeo mostrou um punhado de pessoas que responderem que sim e que depois confrontados com a segunda pergunta responderam não. Aquilo que o CHEGA quer mostrar é como estas pessoas são incoerentes e nem elas querem o que defendem. Este vídeo tem dois problemas: na premissa e na execução. A premissa é errada: eu posso defender algo que não quero para mim - a isto chama-se direito. Defender só aquilo que faz sentido à minha luz é puro egoísmo. Essa argumentação só faz sentido numa lógica de restrição de Liberdade, que foi o que elaborei na semana passada, por isso não me alongo. O problema de concretização prende-se com o facto de que nessa resposta uma disse que «sim» e todas as outras, as que responderam «não», prontamente disseram que não tinham espaço disponível. É intelectualmente desonesto e de uma comunicação incompetente achar que qualquer uma dessas respostas significa o «não» que quem concebeu o vídeo quer que signifique.
Estas questões de desonestidade intelectual perturbam-me particularmente. Não são meras mentiras ou falácias, são ataques à inteligência alheia, são o reflexo de uma postura de ortodoxa presunção.
Esta semana a política aduaneira estadunidense é um dos assuntos mais falados, trata-se de Trump começar uma guerra comercial com os seus países vizinhos. Impressiona-me a forma como ele sempre prometeu este protecionismo, as tariffs, como forma de sancionar, culpar?, os vizinhos e ao mesmo tempo prometeu uma descida de preço nas compras e os norte-americanos querem os dois. Escusado será dizer que os preços aumentam. Ou são ignorantes, ou sadomasoquistas – e não dos que respeitam o consentimento. Este protecionismo não é mais do que uma forma de desviar as atenções e inflamar o ego de um homem. Que o mundo consiga seguir a seriedade de Claudia Sheinbaum.
Para concluir, não resisto a confrontar a seriedade com a idade: por muito que se tente correlacionar a idade positivamente com a seriedade, o nosso mundo não deixa de nos provar quotidianamente como estamos errados. Parte substancial da juventude de hoje está mais consciente das crises em que vivemos do que muitos daqueles que constituem os atuais decisores. Isto para não falar das dissonâncias cognitivas dos que negam confiar na juventude, apesar de passarem a vida a reclamar que nenhum jovem quer saber do quer que seja – isso também é falta de seriedade.
Não há espírito crítico sem honestidade intelectual e vice-versa. Mais seriedade. Mais honestidade intelectual.