Foram várias vezes que aqui abordei questões atuais que nos atordoam, dificultam a perceção da realidade e a atuação nela.
Uma faceta desse fenómeno está na privação extrema, como forma de asfixiar qualquer resistência, ainda que meramente racional. Trata-se de colocar os indivíduos sob grandes quantidades de stress: uma infinidade de horas de trabalho e uma família para cuidar, sempre com a questão de se será possível pagar as contas, se haverá um dia em que não haverá comida sobre a mesa. «Pode até ser, geralmente, que a ação dos determinismos seja ainda mais impiedosa quanto mais ignorada for a extensão de sua eficiência» (Os herdeiros, Bourdieu & Passeron, 2014, p. 45), ou seja, a consciência da privação diminui com o aumento da privação.
A violência das palavras de Clarice Lispector que partilhei no outro dia certamente que nos ajudam a deixar isto claro. Caso queiramos outro exemplo para nos recordarmos, reparemos nestas palavras da Hora da estrela «Macabéa pedir perdão? Porque sempre se pede. Por quê? Resposta: é assim porque assim é. Sempre foi? Sempre será. E se não foi? Mas eu estou dizendo que é. Pois.» Trata-se de uma mulher à beira da morte, cuja vida se confundiu com a sua exploração. Uma identidade de tal forma plena que a questão «quem sou?» só foi uma vez pronunciada «Assustou-se tanto que parou completamente de pensar».
Pelas nossas terras, não obstante, também há muita gente que pode viver a medir o salário, mas sabendo sempre que as contas estarão pagas. Pessoas que têm «tempo para si». Que ao fim do dia conseguem ver televisão, ir às redes sociais, estar no café,… Ao falarmos com estas pessoas, contudo, ouviremos repetidamente que «não têm tempo». Com maior ou menor grau, há tempo, não há é disponibilidade, energia, principalmente mental. Ou seja, mesmo quando poderíamos ter um espaço de questionamento, reflexão e ação, somos arrebatados para o sofá com o cansaço.
Mesmo quando olhamos para quem tem, à partida, maior disponibilidade mental, mais tempo, como é o caso de jovens, apercebemo-nos que os mecanismos anteriores também estão presentes, além de se tornar claro um outro: o assoberbamento. Vivemos numa constância de estímulos. Somos bombardeados com informação, quer seja visualmente como auditivamente. Os fones são paisagem, a publicidade omnipresente. O silêncio parece extinto. Escusado será afirmar que a ausência desse silêncio impede o questionamento e reflexão.
Esta sociedade hiperativa paralisa-nos. Torna-nos inerciais, neutraliza-nos. Tudo isto já aqui antes abordei. Aquilo que me parece pertinente de salientar é que não basta criar o silêncio para brotar o espírito crítico.
A inércia mantém-se, significa que estamos anestesiados, até a um abanão em contrário. Significa que nos habituámos a ser meros recetores. O ato de pesquisar tornou-se estranho para nós. Aquilo que nos entretém não é selecionado por nós, mas por um algoritmo. Não estamos simplesmente afogados em informação, já não nos lembramos como se nada. Mesmo num cenário em que seria possível tornar razoáveis os níveis de exposição a informação, ainda haveria muito trabalho a fazer sobre a forma como a digerimos. Vi muita gente a ofender-se com a expressão «cretinos digitais» que um manifesto atirou para o espaço público, mas não estaremos a tapar o sol com a peneira? Não estaremos em negação?
Seria tão bom que «espírito crítico» não fosse ruído, mas algo para levar a sério.