Lembro-me bem de estar no carro, há talvez 8 anos, a passar por Malbusca, mais conhecida hoje por ser o local de onde se esperam colocar microssatélites em órbita, e ouvir no rádio, através da Rádio ASAS do Atlântico, “Losing My Religion” dos R.E.M. Quando cheguei a casa, fui pesquisar qual era aquela música. Rapidamente cheguei a “Everybody Hurts” da mesma banda.
Uma voz melancólica destaque-se por cima de acordes maiores, supostamente alegres, cantando versos como:
«Quando o teu dia é longo / E a noite, a noite é só tua / Quando tiveres a certeza de que já tiveste o suficiente / Desta vida, bem, aguenta-te / Não te deixes ir / Porque toda a gente chora / Toda a gente sofre às vezes / Às vezes tudo está errado / Agora é hora de cantar juntos / Quando o teu dia é só noite (aguenta-te, aguenta-te) / […] / Encontra conforto nos teus amigos / […] / Não desistas / Não, não, não, tu não estás sozinho».
De facto, não se pode dizer que seja raro o momento em que contactamos com o sofrimento. Podemos estar a falar de uma discussão de casal, de um resfriamento na amizade, uma noite mal dormida, uma avaliação menos boa, um autocarro perdido, palavras que não nos chegam, trabalho para dar e vender, réguas sobre as vidas dos outros, as luzes azuis que inebriam, os compromissos que se acumulam, e até podemos falar do dinheiro que não estica, do estômago que não gera quimo, do corpo cuja única água que sente é a da chuva.
No “Mundo como Vontade e Representação”, Schopenhauer afirma «Entre os desejos e as suas realizações decorre toda a vida humana. O desejo, pela sua natureza, é sofrimento; a satisfação engendra bem depressa a saciedade. O alvo era ilusório, a posse rouba-lhe o seu atrativo; o desejo renasce sob uma forma nova, e com ele a necessidade; senão é o fastio, o vazio, o aborrecimento, inimigos mais violentos ainda do que a necessidade».
Mesmo que nos saciemos, rapidamente geramos uma nova necessidade por cumprir e, portanto, sofrimento, argumenta Schopenhauer. Esta perspetiva, apesar de pessimista, aponta a algo crucial: excetuando-se quem não tem as suas necessidades fisiológicas básicas cumpridas, percebemos a cada momento que uma infinidade de outras necessidades foram satisfeitas. Trata-se uma lógica algo epicurista: face ao medo de sofrer, sabemos que qualquer período de sofrimento tem um fim; e face ao medo de não alcançarmos um bem, sabemos que não é preciso muito para o fazer, basta satisfazer o básico, como um bom prato e amigos. Na esmagadora maioria dos casos de quem está a ler este texto, podemos mesmo falar em privilégio: nas condições sociais e económicas que nos colocam numa posição em que damos muito conforto por adquirido, conforto a que a maioria da população atual e histórica não tem, apesar de estarmos longe da loucura de quem quase tudo tem, dos titãs.
Estas mensagens de simplicidade para ultrapassar o sofrimento não bastam. Servem para sermos capazes de dar um passo atrás e ter uma visão geral. Nesse momento, devemos perceber que nenhum determinismo por redes causais, nem um fatalismo religioso implicam o conformismo. Não sabemos os efeitos, nem o que está na mente de Deus; sem régua, seguimos pelo nosso pé.
Sofrer é suportar, é dar sentido à dor. Precisamos de tempo, de fraternidade, compreensão e abertura. Precisamos de uma comunidade que erradique a dor sem sentido, a da injustiça, e que permita sarar as outras. Essa é a nossa utopia concretizável, o nosso horizonte de esperança.
Variações canta «Muda de vida se tu não vives satisfeito / Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar».
Juntos.