Existe uma figura que habita na semântica dos afazeres comezinhos, uma figura não rara a vez satirizada: do profissional, normalmente no feminino, cujo ofício é aplicar sectorialmente a burocracia. São os diferentes guichés, as incontáveis senhas, os formulários, é esse cenário no qual se move a nossa figura. É a antropomorfização da burocracia.
Burocracia costuma ser vista de modo diabolizado, entendida como um conjunto de papéis sem sentido que complicam a vida de toda (?) a gente. Permitam-me defender a burocracia: é um garante de transparência. Numa democracia temos regras que são aplicadas em pé de igualdade a qualquer cidadão, a legislação. A forma de garantir que existe justiça na sua aplicação é através de um mecanismo que cristalize os vários procedimentos em documentos que podem ser acedidos a qualquer momento. Cada unidade burocrática que é pedida tem um propósito e aquilo que hoje acontece é que muitas vezes o que nos é pedido é uma distorção do propósito. O nosso problema é com a disfuncionalidade, com o pedido de documentos cuja justificação é desconhecida até por quem a pede, por se multiplicar em papéis, por não existirem canais de comunicação interinstitucional,…
Ou seja, quando estamos diante desta burocracia disfuncional, julgo que podemos concordar que esse procedimento só existe formalmente, é meramente forma sem substância. Estamos a fazer algo por fazer e não pelo seu valor. É uma etapa vazia.
E esse formalismo da burocracia disfuncional é algo transversal à nossa sociedade. Existe um neologismo que nos ajuda nesta compreensão: «performar». Trata-se de realizar tarefas para dizer/mostrar que as fizemos sem retirar nenhum significado dessas ações (não confundir com as performances artísticas). Esta ideia está tanto nos empreendedores que querem mostrar resultados contabilísticos, como nos pseudointelectuais que começam a ler a primeira página do Guerra e Paz no transporte público. Também está na figura pop das Karens que reclamam por tudo e por nada – a sua mesquinhez rima com o cinismo da «senhora da secretaria».
Trata-se de uma racionalidade imanente à estrutura social que temos. É esta ideia de que não basta ser/fazer/ter, é preciso mostrar/ser visto. Certamente que as redes sociais são catalisadoras (sintoma e causa?) desta atitude – vejam-se os comentários que existem no mundo online para percebermos que a maior parte são só forma, como insultos, motes, frases feitas, tudo desprovido de substância.
A crise de identidade é evidente. A aceleração em que vivemos, essa que comprime o pensamento no tempo de um scroll no ecrã, impede-nos de problematizar estas questões: entre a senha e o guiché, entre o comentário e o insulto, deixámos de ter tempo para perguntar para que serve cada forma que cumprimos. Quando a forma se esvazia, resta o gesto pelo gesto, a máscara sem rosto.
Chegamos a um de novembro de 2026. Chegamos a mais um triste episódio de violência policial no nosso país. Vemos a polícia a infiltrar-se à paisana entre os manifestantes para os destabilizar e, quando apanhados, a apontar uma arma de fogo a quem pacificamente se expressa. A agredir quem está claramente identificado como jornalista. A encurralar e abrir cabeças. Se a burocracia é forma que deveria ter substância, aqui está a sua trágica caricatura: agentes sem identificação, força sem mandato visível, a própria lei performada sem lei. Somos todos a «senhora da secretária» e a democracia está em risco.