Foram muitas vezes aqui que reclamei das más-línguas, quer seja na forma de grossaria ou cinismo, os dois modos de abater qualquer esperança: pela ação destrutiva, normalmente envolta em ignorância, ou pela indiferença. Permitam-me um desabafo: eu também estou farto da política. Sendo primeiro candidato à Assembleia da República pelos Açores (pelo Bloco), será certamente suspeita esta afirmação. Talvez soe a demagogia: pois bem, corro esse risco, mas não faço qualquer tenção de «simplificar» o meu discurso, terraplanando-o, pelo que o método certamente atentará a minha autenticidade.
Antes de continuar, que se deixe claro que estar farto da política não significa não tentar ter uma postura positiva. Primeiro, vejamos do que se trará quando falamos em «política», o porquê de estar farto dela e como superar esse estado.
Quando alguém diz estar farto da política, normalmente di-lo em reação à política institucional, ao testemunho de discussões entre representantes eleitos, por exemplo, ou de comunicados do governo. É perante as notícias que mais se evidenciam essas reações. Esse objeto a que frustradamente chamamos «política» vou entender como fazer-política (é mesmo com hífen para ficar evidente ser um conceito). Isto é importante para separar a dimensão prática, quotidiana, da política das vertentes teóricas presentes na Ciência Política e Filosofia Política, entre outras áreas de investigação. Não estamos a falar de sistemas eleitorais, nem de tipos de regimes, estamos a falar da ação e pensamento dos agentes políticos (entenda-se qualquer cidadão, independentemente de ser um titular de cargo político).
Quais são os vícios do fazer-política? A minha resposta a esta questão julgo ser uma pista sobre o porquê de haver poucos filósofos a dedicarem-se à política institucional (o que talvez seja contraintuitivo para o leitor que vê a Filosofia como o campo dos discursos vazios…).
As discussões que assistimos parecem não ter substância, e mesmo os debates de onde constam a enunciação de medidas concretas deixam ainda alguma desconfiança, porque a política é tida como um jogo de aparências. A lógica consumista, que se desenvolve assente num plano neoliberal, encurta a nossa atenção e orienta as nossas expectativas de modo que mais facilmente se coloca um político a dançar no TikTok do que a explorar fundamentalmente o seu projeto. O pior dos vícios é este: a discussão radical, estrutural, está ausente, perdida na espuma dos dias.
Como se não bastasse essa falta de espírito crítico, ainda falta honestidade intelectual. Partidos são entendidos como clubes. As pessoas não se abrem a novas visões. Há uma impaciência ignorante. Muitas vezes, quem mais se julga um paladino do espírito crítico é quem menos honestidade intelectual tem.
Este ponto é importante por estarmos num tempo onde a indiferença perante a verdade é assustadora. Se aquele discurso parecer bom, não importa mais nada. Hoje diz-se uma coisa e amanhã outra. Quem ontem era um maluco aficionado de teorias da conspiração, agora é eleito.
Como corolário, há um ambiente anti-intelectualista. Tudo o que não tenha um sentido prático evidente é para deitar fora e muitas vezes cai-se nesta retórica, tentando demonstrar a utilidade da teoria.
E agora? Um fascista na casa branca, um chique-esperto como primeiro-ministro português, uma sensação de limite no ar. E agora?
Tenho duas respostas: a primeira é apelar ao envolvimento. Não querermos governar nós, é deixar os outros governar. A segunda é mudarmos a nossa forma de pensar a política: discutamos valores, a matriz de uma sociedade futura, pensemos a partir da raiz.