Uma das bandeiras que o Bloco tem agitado, tanto nos Açores como a nível nacional, é a do subsídio de alimentação: todos os trabalhadores, incluindo do setor privado devem ter direito ao subsídio de alimentação; esse subsídio deve ser, no mínimo, aquele estabelecido para a função. Sim, 1.7 milhões de trabalhadores recebem o subsídio de refeição; sim, vários recebem, por exemplo, 2,40€. Como é que algo que nos parece tão básico é negado? Perguntemo-nos primeiro, porque é que é básico?
Quando falamos de ser básico, trata-se de ir ao fundamento, à estrutura. Para o fazer, julgo ser necessário abordar o trabalho. Para que serve o trabalho?
O trabalho é tido como uma ocupação em troco de dinheiro, alguém cede do seu tempo e esforço para ter um bem universalmente trocável. Isto, contudo, faz-nos encarar o trabalho como uma troca, algo sem fundamento, como sendo uma mera função que habita esta realidade. Para algo tão fundamental na nossa sociedade, algo que ocupa um terço do nosso dia, metade do tempo que passamos acordados durante quarenta anos, isso parece pouco. Porque é. O trabalho, na verdade, deve ser visto como a nossa contribuição para a nossa comunidade: dedicamos parte da nossa vida a criar algo, na expectativa de que a somas dos algos que todos produzimos resulte numa comunidade com algos suficientes para uma boa vida.
É essa a dignidade do trabalho, a autonomia que nos dá. Autonomia é nós participarmos na lei que nos rege, é tomarmos a nossa vida nas nossas mãos. Participamos num esforço comunitário que nos permite condições de vida que sozinhos não conseguiríamos – essa é a boa vida. O trabalho é, portanto, crucial, mas não deve ser um fardo que se estende sem significado, o tempo além-trabalho, aquele em que nos cultivamos, é o mais importante.
Bem sei que isto deve soar a utópico, afinal, um em cada dez trabalhadores, sim, trabalhadores, está em situação de pobreza nosso país. Como é que é possível que um trabalhador não tenha as condições mínimas de vida?! O limiar da pobreza é de 7,59€ e o preço de um cabaz essencial no final de outubro estava em torno dos 243,68€, dois valores que nos devem fazer refletir. 6€ euros no mínimo de subsídio de refeição são assim tão descabidos? Deviam ser mais, 12€ poderiam muito bem acabar com parte dos problemas de muita gente.
O mínimo para quem trabalha é ver as suas condições mínimas de vida automaticamente garantidas. Alimentação é o mínimo. Habitação também o devia ser. Água, luz, saneamento idem. Ninguém devia passar frio ou ficar sem tomar um medicamento, porque o salário não chega.
Como é possível que isto não seja o senso comum? Como é que se considera normal que haja quem trabalhe quase desde quando o sol nasce até quando se põe e ainda seja passe dificuldades? Como é que é possível não se perceber a perversidade em que estamos mergulhados? Ainda estes dias li no Linkedin, rede social para uma comunicação eminentemente empresarial, duas publicações absurdas: uma pessoa que tentava vender os seus serviços de aconselhamento a despedimentos e fazendo-o através de um exemplo de um dilema; e uma outra pessoa que escreveu como mais vale ter piores condições de trabalho e um bom chefe do que um mau chefe e melhores condições. Claramente descarrilámos.
E negamos que descarrilámos, porque nos custa reconhecer que somos vulneráveis. Preferimos espezinhar quem está pior do que nós do que encarar quem é responsável por esta realidade injusta, não só para nos sentirmos superiores, mas porque estamos tão embriagados pela narrativa dominante que nos achamos um dos donos disto tudo, ou melhor, achamos que podíamos ser um deles. Um oftalmologista e um espelho recomendam-se.