“Quando os lobos uivam”
Aquilino Ribeiro
ou
“Quando os bobos uivam”
Onésimo Teotónio Almeida
O paralelismo entre a obra de Aquilino que relata a revolta dum povo contra a usurpação fascista dos baldios que serviam as populações beirãs e o recente livro de estórias de Onésimo que ridiculariza, ao mesmo tempo que denuncia, as trapaças que os bobos engendram à nossa volta, obriga-me a meditar sobre a atual situação política portuguesa.
O que menos preocupa os bobos, nesta trapalhada governativa, são as consequências nefastas que recaem sobre quem trabalha. O que move estes figurões são, por um lado, as ordens dos nossos especuladores e, por outro, o protagonismo pessoal pela forma como cada qual melhor consegue prolongar esta agonia dum povo.
A confusão entre o que significa político hábil e político habilidoso sugere o paralelismo entre o sentido de oportunidade e o oportunismo político. Para nossa infelicidade, somos governados por bobos oportunistas e lobos habilidosos que tentam fazer passar-se por políticos hábeis e com sentido de oportunidade.
A promiscuidade entre os interesses e medos dos bobos e lobos no poder conduziria, infalivelmente, ao entendimento. Não porque o bobo tenha recuado na sua teimosia, ou o lobo dado o dito por não dito, mas porque entre “swaps” e submarinos, venha o diabo e escolha, para além do envolvimento BPN e a Aldeia da Coelha preocuparem os bobos e a falta de explicações sobre o financiamento obscuro de determinado partido não interessar aos lobos.
Na realidade, o interesse comum é cumprir os desígnios dos nossos especuladores, empurrando para a frente os verdadeiros problemas que nos conduziram a esta situação, numa tentativa de fazer com que passem ao esquecimento, enquanto aguardam um clima favorável que branqueie esta cumplicidade.
Desengane-se quem pensa que o bobo conseguiu convencer o lobo. Quem sai a ganhar de toda esta trapalhada é o habilidoso que, de forma oportunista, passa a ter o domínio das finanças e da economia, numa conjuntura europeia que tende a recuar nalgumas obsessões face aos resultados nefastos das políticas impostas.
O lento, mas progressivo, reconhecimento da necessidade de dinamizar a economia, sob pena de nem os especuladores terem onde ir sacar dinheiro, vai facilitar o surgimento dalguns resultados macroeconómicos positivos. O populismo oportunista a que o lobo já nos habituou fará o resto.
O objetivo foi atingido pelo lobo: o protagonismo das finanças, da economia e da negociação com os especuladores. Nas finanças, os submarinos dominam os “swaps”; a economia, depois de bater no fundo, só pode estar obrigada a crescer; a capacidade de argumentação com os especuladores está facilitada pela conjuntura internacional.
O bobo demonstrou a sua incompetência e saiu a perder, o que não me preocupa. Mas quem continua a perder é quem, não sendo bobo nem lobo, à margem das trapalhadas, sofre as pesadas consequências das trapaças.