Tribalismo

Quem acompanha estas linhas já estará aborrecido com a quantidade de vezes em que me reporto à aceleração do quotidiano. No entanto, é preciso insistir: esta pressa não é um acidente, é o motor de uma alienação estrutural. A constante falta de tempo é uma forma de asfixia - e com a vantagem cómoda de não parecer algo infligido. Como nos recorda Hartmut Rosa, a aceleração social priva-nos da "ressonância" com o mundo. Vivemos num estado de dessincronização permanente, onde a velocidade do consumo e da informação anula a nossa capacidade de assimilar a experiência. A abertura ao mundo torna-se impossível com tantos estímulos e tão pouco tempo. Não conseguimos digerir. O resultado é um tribalismo reativo; na falta de tempo para pensar, reagimos em bando.

Mas não é inevitável. A saída deste ciclo não reside em soluções tecnocráticas ou autoritárias. Para percebermos que essas tentações só pioram o problema, é necessário enveredar pela emancipação individual. Aqui, sigo Jacques Rancière: a emancipação não é o resultado de uma aprendizagem através de um mestre, mas o ponto de partida de quem se reconhece igual. É a afirmação da "igualdade de inteligências". Contra a aceleração que nos quer dóceis e rápidos, a emancipação é o ato de parar e verificar a nossa própria capacidade de pensar.

Neste percurso de resistência, a escuta ativa deixa de ser uma mera técnica de comunicação ou uma ferramenta de marketing pessoal para se tornar um gesto político de profunda subversão. Ouvir o outro pressupõe, antes de mais, reconhecê-lo como um igual. É recusar a tendência contemporânea de tratar o interlocutor como alguém que precisa de ser "explicado", "iluminado" ou "corrigido" por uma autoridade superior. Antes, estimular a reflexão. É por isso que podemos ser progressistas sem ser paternalistas. O paternalismo político e social é a negação da emancipação; é o pressuposto de que o outro é incapaz de gerir a sua própria autonomia. Uma sociedade de iguais não precisa de tutores, precisa de interlocutores.

A crítica (inerentemente construtiva) surge então como a ferramenta desta igualdade em ação. Ela não visa a destruição do adversário, mas pensar os limites do objeto: circunscrever e apontar caminhos. Hoje parecemos confundir incessantemente o que é uma crítica: ou a encaramos como um ataque de caráter ou assumimos de fachada o nosso apreço pela crítica, embora não a exerçamos.

Se a aceleração descrita por Rosa nos rouba o presente e a capacidade de nos relacionarmos com o que é diferente de nós, a emancipação proposta por Rancière devolve-nos o direito de intervir no espaço público sem pedir licença e sem esperar por uma validação externa. A fraternidade para um mundo melhor, tão evocada mas raramente praticada, só é possível fora destas bolhas tribais. Ela nasce no momento em que deixamos de procurar o reflexo do nosso grupo no rosto do outro e passamos a procurar, ativamente, a inteligência compartilhada.

O desafio que enfrentamos não é apenas o de abrandar o ritmo frenético das nossas máquinas e agendas. O verdadeiro desafio é ocupar o tempo que recuperamos com a coragem de nos reconhecermos, finalmente, como iguais. Contra a vertigem que nos isola na nossa própria pressa, escolhemos a autonomia. Contra o ruído ensurdecedor que nos separa, escolhemos a escuta. Só assim a política deixará de ser um combate entre bandos para passar a ser o exercício coletivo de uma humanidade emancipada.