Um abismo

Na semana passada comecei a escrever como desenvolvimento da minha intervenção nas Conferências Zuraida Soares. Escrevi sobre aquela que me parece ser uma outra forma de organização programática, que fosse capaz de encarar a nossa realidade como um todo, na sua complexidade e articulação, fugindo aos tradicionais temas que figuram nos panfletos eleitorais. Analisámos sucintamente estas questões, levando-nos a considerar os valores como essa outra possibilidade, que além de permitir ter a visão da comunidade que cada projeto preconiza, desvela a ideologia fundamenta um sistema parlamentar através de partidos. Acabámos esse artigo referindo como uma possível questão-chave é «o que é uma vida boa?».
É justamente pela pergunta da vida boa que começamos. Ao fazê-la estamos à procura de respostas que cruzam todo o nosso quotidiano, lembrando-nos de valores, de afazeres, como de sonhos, por exemplo. Podemos adotar uma miríade de abordagens, como já problematizamos, mas o caminho que gostava de continuar a trilhar é outro: esta pergunta faz-nos construir o nosso cenário de conforto. Em última instância, a resposta pode ser uma utopia, enquanto a realidade ideal. Agora, não achemos que utopia seja o sonho irrealizável, longe disso. Podemos pensar a utopia como um concreto a concretizar-se, como estando um porvir nas nossas mãos por construir – olhemos para o Princípio Esperança de Ernst Bloch. O que me parece extremamente de valioso que aqui está subjacente é esta positividade, pensar no que queremos, qual o objetivo, não nos toldando o pensamento ao imediato amanhã. Facilmente nos podemos perguntar o de que vale tomar uma ação sem termos em vista um bom futuro ou se não nos revermos naquele que nos é apresentado ou se não o conseguimos sequer ver.
Julgo que já algumas vezes aqui trouxe o nome de Marina Garcés, perdoem-me invocar novamente o seu pensamento: os temos em que vivemos reportam-nos para a vertigem do limite, de nos confrontarmos com um abismo inultrapassável. O apocalipse apoderou-se do nosso imaginário. Experienciamos o grande limite das alterações climáticas, da insustentabilidade na exploração de recursos naturais, da gestão do espaço (veja-se a crise na habitação), temos colocado em causa os limites da nossa humanidade através da inteligência artificial, mas também pela desumanização que tanto as guerras como o ódio propagam – só para mencionar alguns limites daquele que é muitas vezes visto como o primeiro mundo. Não admira que nos sintamos que vivemos na berma de um amanhã que se vai esvanecendo cada vez mais. Não admira que o pessimismo surja em força, incluindo um pessimismo antropológico. Não admira, então, que esteja tão presente nos nossos dias o cinismo – nas suas aceções relacionadas com o sarcasmo e a hipocrisia.
É esta atitude de crítica imóvel, mas também vazia por ser superficial, que nos coloca na borda da desistência. Pior, essa atitude de constante desprezo é contagiante: entra num ciclo de feedback positivo, em que se vai enraizando cada vez mais. E de atitude passa a comportamento: atua como um nocebo, o efeito de um placebo pela negativa, uma profecia autorrealizada. Nesse ponto, já não estamos somente na nossa individualidade a desprezar o mundo, mas a organicamente inscrever esse desprezo no próprio mundo. É neste ciclo que nos encontramos e é dele que temos de sair. Sob a aparência de desvelar todo o conhecimento do sistema, a verdade é que nos cega as reais possibilidades de mudança. Quer seja a pensar em novos mundos, quer seja em ações do dia-a-dia, façamos o esforço de pressupor o bem – nem que seja por turnos.