Um determinista inconformado

Todos nós, mais tarde ou mais cedo, nos pusemos a filosofar. Muito pela mão do meu professor de Filosofia, acabei por pensar acerca das questões do livre-arbítrio e de como podemos enfrentar a nossa ignorância. Algo me pareceu inabalável: tudo poder ser conhecido.

Existe uma corrente filosófica, a determinista, que afirma que a realidade é uma gigantesca rede de causas e efeitos e, como tal, é possível prever os eventos. Se soubermos que A leva a B, então quando acontece A podemos esperar que aconteça B – esta é a essência do pensamento determinista. As ciências naturais e exatas baseiam-se justamente no princípio de que o Universo se rege por um conjunto de leis que são universais e imutáveis.

Sabemos calcular os efeitos da gravidade e modelá-los precisamente porque a sua aplicação é extensível a todo o espaço e em qualquer tempo. A previsão que usamos para a força gravítica na Terra é a mesma que usaríamos em Marte.

Porque é que isto interessa? Significa que todos os problemas têm solução.

A Fundação, da autoria de Isaac Asimov, revela-nos um conceito transformativo: a Psico-história. Hari Sheldon, o fictício inventor desta área de estudo, combinou a História, a Sociologia e a Matemática Estatística como forma de tentar descodificar o futuro. Ele baseava-se em duas máximas: a população em estudo devia ser numerosa e os indivíduos não deviam ter conhecimento dos resultados das previsões, sob pena de mudarem os resultados.

Da mesma forma que tentamos prever o Universo, não conseguiremos prever o comportamento humano? Esta é realmente uma questão avassaladora.

Provavelmente numa tentativa desesperada de tentar sentir algum poder perante a ignorância que tenho, creio sinceramente que é possível obtermos uma resposta a qualquer questão. A realidade, nem que seja num mundo macroscópico, é possível ser conhecida. Mas, nesse caso, porque é que ainda não temos esse domínio? Bem, não temos a ciência desenvolvida a esse ponto. Só uma porção muito reduzida das nossas questões tem resposta. Que se note que com «questões» refiro-me tanto a buracos, como erradicar a pobreza, encontrar as chaves ou a um regime político ideal.

O leitor provavelmente está a pensar: isto de ser tudo previsível soa a destino, então quer dizer que mais vale estar quieto e ir ao sabor do vento? É justamente aqui que quero chegar. Não. O que esta perspetiva nos diz é que existe um futuro e ele baseia-se no que nós fazemos. Somos nós os agentes do «destino».

O facto de sabermos que existe algo que ocorrerá absolutamente não nos deve fazer baixar a guarda, mas sim arregaçar as mangas e garantir que esse acontecimento é aquele que queremos.

O facto de vivermos numa densa cadeia de causas e efeitos deve ser usada a nosso favor e servir para percebermos como funciona a realidade e como chegar às soluções das nossas questões. Da mesma forma que sabemos que 1+1=2 saberemos como resolver a crise climática. Curiosidade e persistência são os motores das nossas descobertas e precisamos de trazer isso para a política. Quando se fala em importar o espírito científico para a arena política, estamos a referir-nos a esta essência e não à construção de uma tecnocracia.

Não nos podemos esquecer que as soluções surgem da ponderação e não necessariamente da moderação. Precisamos de inconformação perante o futuro.