Qual é a relação que temos com os nossos representantes numa democracia representativa? Na última semana falei sobre a necessidade dos nossos representantes ouvirem. Hoje pretendo complementá-la abordando esta nova perspetiva: a forma como nós, cidadãos, encaramos os nossos políticos. Em novembro de 2018 andei a matutar sobre esta questão e acho pertinente deixar neste espaço essa mesma reflexão, tendo apenas feito uns ajustes linguísticos nos parágrafos originais que se seguem.
Hoje cheguei por volta das oito da manhã à escola para ter aula de física e química, no entanto, como não tinha nada para fazer, pus-me a andar em elípticas à frente dos laboratórios e, claro está, a refletir sobre a democracia. Após uma excelente rodada de voltas cheguei a uma conclusão:
Para uma democracia representativa ser saudável é necessário que se estabeleça, entre cidadãos e governantes, dois tipos de confiança: ideológica e humana; onde a primeira deve ser questionável e a segunda deve ser inabalável.
Após a nomeação do governo segundo as normas em vigor, os governantes seguem a sua linha de ação atendendo ao plano de governo apresentado em eleições, existindo um conjunto de propostas do conhecimento dos cidadãos que deverão ser aplicadas. Contudo, qualquer cidadão pode duvidar dos meios, e mesmo dos fins, que o governo pretende, tendo em conta que em democracia um valor fundamental é a pluralidade. Assim sendo, existe a construção de uma confiança, ou desconfiança, por parte do cidadão em relação à ação do governante, estando esta dependente de uma visão ideológica, logo, subjetiva. Daqui se infere a confiança ideológica.
Em relação ao governante, enquanto indivíduo, o cidadão pode considerá-lo não apto a realizar o seu trabalho devidamente, no entanto não deve considerar que o detentor do poder executivo não possui sentido de responsabilidade em relação à segurança dos cidadãos. É de extrema importância partir do princípio de que qualquer governante possui por fim último a salvaguarda dos interesses dos cidadãos (de acordo com a sua visão). Caso contrário seria mais adequado viver-se em anarquia, de forma a cada indivíduo governar-se a si próprio, dada a desconfiança no outro, evitando-se, assim, que alguém possua a responsabilidade de zelar pela segurança do todo. Considerar que o governante, por muito pouco ética que seja a sua conduta, possui por fim prejudicar os cidadãos constitui um clima insustentável para a atuação ideológica do governo (cujo programa foi democraticamente eleito). Logo, é necessário existir a confiança humana.
Apesar desta necessidade de estabilidade, o paradoxo da tolerância mantém-se, não devendo a sociedade ser tolerante com os intolerantes sob pena de perder a tolerância. Na mesma linha de pensamento, a falta de ética dos governantes é reprovável. Pura e simplesmente não é sustentável afirmar que alguém no poder executivo só defende os cidadãos quando se concorda ideologicamente com o mesmo, sendo esta uma ação de enorme perversidade por promover uma ofensiva à pluralidade, valor base da democracia.
Podemos ser críticos da ação do governo, mas não devemos duvidar das suas boas intenções sob pena de se violar a construção de uma sociedade fraterna.
Quando dei por mim estava uma mancha de pegadas, marcadas a água, no chão.