Às vezes somos confrontados com decisões sobre a permanência num determinado caminho. Temos de olhar para o que foi feito, relembrar o objetivo, e avançar pelo mais adequado. Recentemente vi-me a ter de reavaliar o meu percurso. Talvez por vivermos numa sociedade e termos de ter uma utilidade, é impensável hoje não começarmos a pensar minimamente a longo prazo, se estudar, o que estudar, onde trabalhar,… Esse longo prazo, apesar de bem-intencionado, é, aliás, o motivo de parte do aumento relativo a depressões e ansiedade. Não obstante, hoje a história que quero contar é outra: a de que um jovem teve de colocar a esperança em stand by.
Concretizando aquilo que escrevo: em janeiro decidi deixar a presidência da Associação Juvenil de Santa Maria e a coordenação do Bloco de Esquerda em Santa Maria. À maioria dos leitores não importarão muito estas questões, por isso aquilo que me parece pertinente é expor as razões gerais que me levaram a tomar essas decisões (com a neutralidade e humildade possíveis).
Desde logo, é necessário perceber que a esmagadora maioria das pessoas com um papel político ou associativo fazem-nos sem qualquer rendimento associado. Nunca, em qualquer das atividade que desempenhei ganhei qualquer coisa sem ser trabalho. Aliás, por vezes até se chegou a gastar para se ir limando algumas pontas. É, portanto, muito injusto afirmar que as pessoas que abdicam do seu tempo pessoal para esse tipo de trabalho comunitário o fazem por interesses e benefícios. Quaisquer receitas que se arrecadem são esticadas ao máximo para os seus propósitos, sendo impensável (e bastante fácil de notar) qualquer desvio de fundos. Sobre o caso político particularmente, há um desgaste pessoal de imagem pro bono, muito mais evidente que alguns casos associativos, pelo que a afirmação «todos os políticos são iguais» é igualmente repugnante.
O facto de vivermos na sociedade que vivemos, como já várias vezes descrevi, leva a que poucos tenham disponibilidade temporal e mental para dar um passo em frente. Há ciclo de desinteresse e impossibilidade que coloca estas atividades numa espiral decadente. Menos investimento, maiores constrangimentos, menos visibilidade, menos interesse, menos participação,… Esta questão aparece com maior evidência no associativismo, mas na política vê-se claramente um desligamento por verdades fabricadas e falta de esperança sobre o cenário político. Vai-se a ver e, no final do dia, ninguém se quer chatear nem dar a cara. Então as pessoas que avançam, além dos grandes constrangimentos que têm, ainda têm a sobrecarga de uma reduzida equipa.
Como se esta conjunção não fosse suficiente, há uma cultura de escárnio de dirigentes associativos e políticos por parte de uma fração das pessoas que, mesmo sendo minoritária, torna-se ruidosa no meio do silêncio dos restantes. As pessoas nunca estão satisfeitas, assim o exige a essência humana (e isto também vale para quem está ao leme). Isso é saudável: levam-nos à utopia, à procura pela perfeição que nos leva à superação, a almejarmos conseguir fazer melhor. Agora, há uma clara linha que separa essa ambição saudável de uma crítica destrutiva, uma conversa de café que serve somente para mentes tacanhas justificarem a sua inação. Dizia Platão: o maior castigo é ser governado por quem é pior do que nós, se não quisermos governar nós mesmos.
Se afastarmos quem sacrifica o seu tempo, quem ficará? Que futuro? Que comunidade? Quem fica, por mais quanto tempo? Quem saiu, voltará? Eu retomarei mal a minha esperança reapareça, o que provavelmente vai acontecer com a consciencialização da minha geração.