Num mundo tão grande, com tanta gente, temos uma infinidade de coisas a melhorar. São milhares de milhões de vidas, de quotidianos diferentes, cada um com os seus problemas. São lutas individuais que temos de ter em conta. Quando percebermos que é possível entreajudarmo-nos, todas as lutas serão mais fáceis. Mas quais são as coisas que cada um valora?
Uso coisas da forma mais geral possível. Podemos falar de bens materiais: aquele pano bordado pela nossa avó, aquela santa em cima da cabeceira, uma aliança no dedo, uma nota de dinheiro. A literalmente todo o objeto podemos atribuir valor, sendo essa uma caraterística humana: uma dimensão simbólica capaz de associar ideias a algo físico. Como tentei mostrar na enumeração, essa valoração pode ter uma natureza sentimental, tal como pode ser uma convenção como o dinheiro que usamos, sendo, portanto, o nosso quotidiano uma série de simbolismos. Se fossemos visitados por extraterrestres provavelmente a esmagadora maioria destas coisas passariam despercebidas.
Podes adicionar a esta conversa a valoração dos atos: os beijos, os abraços, o ceder a passagem, o vestir um casaco de alguém, um punho fechado no ar. Existem convenções como as saudações, mas também ações que se têm com um determinado objetivo. Não tenho qualquer autoridade na matéria, mas parece-me que quanto mais pequenos são os atos e subconscientemente os fazemos, os tornamos mais puros em intenções.
As coisas mais insignificantes têm sentido para alguém, nem que seja uma pessoa. Isso tem tanto de bom como de mau. Tanto podemos fazer alguém se sentir bem, como mal. Muitas vezes as relações interpessoais baseiam-se em valorar algo: seja um gosto em comum ou uma forma de agir. Sejamos românticos por umas linhas e pensamos na linguagem do amor: podemos expressá-lo passando tempo de qualidade, dando ofertas, através do toque, da entreajuda ou de palavras afetuosas. Uns de nós valoramos mais algumas destas coisas que outras e isso depois tem impacto numa relação: se duas pessoas tiverem linguagens distintas, terão de fazer um esforço de comunicação muito maior. Claro está que podemos aplicar a qualquer relação interpessoal, aplicando outros níveis de intensidade e expectativas.
De que interessa esta conversa da valoração das coisas? Trata-se de estabelecer prioridades e a política é a arte de estabelecer prioridades. Nós valoramos causas. Temáticas. Problemas. Temos de perceber aquilo que valoramos para perceber quem somos e para o onde queremos ir. Temos de perceber que a valoração é relativista, sendo altamente individual, em muito influenciada pela cultura. Não podemos esperar que sejamos todos iguais, e ainda bem que assim não o é: temos a oportunidade de enriquecer o nosso debate com várias perspetivas e aceder a problemáticas que ficam escondidas em minorias, mas também em maiorias enfraquecidas.
Parece-me interessante notar que esta caraterística de valorar as coisas é maior quanto mais novos somos, vive-se tudo mais intensamente. Desde um desgosto amoroso a sair à rua para festejar o 25 de abril, tudo é mais vivo, provavelmente motivado por uma sede de viver própria de quem quer experimentar o máximo que pode enquanto pode. É fácil de motivar os jovens para fazer algo. O movimento ambientalista demonstrou que os meios de manifestação fora do sistema (e.g. fora de partidos políticos) podem ser fortes. Temos de canalizar isso para as nossas instituições democráticas.
Mas primeiro, temos de saber o que valoramos na nossa vida e respeitar as valorações dos outros.