Há umas semanas escrevi sobre a importância do conflito no debate político. Na altura não percebi a consequência óbvia que isso trazia: é necessária militância.
Por diversas vezes disse que o importante não era necessariamente trazer aderentes para o partido, mas sim chamar independentes para se juntarem à discussão. Não entro em rutura com esta afirmação, mas reconheço que deve ser melhorada. Penso que sempre que disse esta frase foi por ter medo de que as pessoas fugissem por não quererem rótulos. Isto diz mais sobre o contexto do que sobre mim, infelizmente. Está na altura de deitarmos por terra as amarras do julgamento popular, que é cultural, e orgulharmo-nos de fazer política, de querermos o melhor paras as nossas terras. Que caiam os estereótipos do que é ser político, porque hoje sabemos que todos o podemos ser!
Vivemos numa democracia representativa que funciona através de métodos de proporcionalidade, pelo que os partidos políticos assumem a vital relevância de servirem de meios de representação. É neles que é suposto debater e contruir rumos, diferenciando a visão dos diferentes projetos.
Assim sendo, é necessário que haja pessoas dentro desses partidos para que a alternativa se afigure. Ou seja: pessoas com visões próximas juntam-se e formam os partidos, os eleitores, individualmente, decidem qual o projeto que consideram melhor e daqui sai a representação que temos nos órgãos eleitos.
Nunca esquecer que a democracia também deve existir dentro dos partidos. As pessoas que compõem o projeto têm o direito de decidir quem comanda o projeto. É por isso que as direções partidárias têm credibilidade nas escolhas dos candidatos às eleições. Essas mesmas direções foram o resultado de escolhas internas que são acompanhadas por um programa. É justamente por essa razão que, neste contexto, as primárias não são necessariamente uma solução. Compete a quem, a nível local, regional ou nacional, foi mandatado o dever de agir e fazer valer o programa com o qual foi eleito, disso fazendo parte a escolha das pessoas para as listas. É óbvio que a lista como um todo deve ser aprovada por todos os aderentes da zona respetiva, mas a sua proposta parte da direção.
Claro é que só quem é filiado num partido tem o direto de eleger e ser eleito dentre dele, pelo que daqui se infere a importância da adesão.
Não quero com isto afirmar que os independentes estão mal (e com independentes refiro-me não a pessoas alheadas da política, mas sim a cidadãos politicamente ativos, mas sem filiação partidária). É necessário pessoas com algum distanciamento para trazerem uma visão diferente e uma perspetiva de quem está de fora. Todas as opiniões contam.
A este ponto penso que é importante clarificar algo: fazer política é este envolvimento e debate, mas não se resume a isso. A maior parte das pessoas que estão num partido não querem necessariamente estar nos seus órgãos. Existem muitos aderentes cujo trabalho é de formiga, no sentido em que é praticamente anónimo e importante: falar com pessoas, ajudar a organizar eventos, passar mensagens para a sociedade em geral…
No final de contas, o que interessa acima de tudo é a militância: envolvermo-nos naquilo em que acreditamos. No entanto, não descuremos o papel da adesão: só com pessoas nos partidos podemos assegurar uma democracia verdadeiramente representativa, onde existem reais alternativas.