Um mundo para mestres da suspeita

No passado dia 13 de dezembro, a Câmara do Comércio e Indústria de Angra do Heroísmo (CCIAH) emitiu um comunicado a manifestar «a sua profunda preocupação face à» «desresponsabilização parlamentar», no âmbito da discussão em torno do Orçamento e Plano regionais para 2025. Feitas as contas, segundo a CCIAH, as propostas de alteração ao Plano totalizariam uns 30 milhões de euros adicionais, caso fossem todas aprovadas – o que, questiona-se, parece contraditório com a preocupação da oposição sobre a dívida. Mais, afirma-se que «todas elas [as propostas apresentadas no âmbito do Orçamento] sem a respetiva explicação de “onde se vai buscar a verba” para a sua execução.» As propostas refugiram-se na utilização da dotação provisional, que constitui, pelo ver da CCIAH, um entrave a «contas públicas saudáveis» e que «evidencia inconsciência política quanto à gestão dos recursos públicos e preocupação exclusiva com a agenda partidária e não com o bem comum.» O comunicado termina com: «A CCIAH espera que, assim, o Estado – a Região, no caso em apreço –, como pessoa de bem, tenha condições para cumprir as suas obrigações, nomeadamente com o tecido empresarial que, reiteramos, é o único que gera riqueza nos Açores.»

Permitam-me, então, alguns apontamentos. O que é agenda partidária se não a busca do bem comum segundo o respetivo partido? Culpabilizar os partidos por terem uma agenda política revela uma aversão à democracia enquanto pluralidade. E isto já diz tudo, aliás, dizem as últimas linhas do comunicado: o que deve haver é uma tecnocracia cuja linha científica é ditada pelos interesses empresariais. Eu percebo isto, afinal estamos a falar de uma Câmara de Comércio. Aqui o que mais me choca é que a comunicação pegou neste comunicado e assim o publicou, sem qualquer trabalho de verificação. Houve um partido, contrariamente ao comunicado, que não utilizou a dotação provisional como sugestão em algumas das suas propostas: o Bloco. Porque não interessa reconhecer esse facto? Talvez porque nesse caso a sugestão era diminuir os apoios às empresas para permitir a redução dos passes de autocarros, ou, no caso de outra, reduzir a promoção do destino Açores para a reabilitação do parque habitacional do Aeroporto de Santa Maria.

O que devemos retirar daqui? A necessidade de nos perguntarmos o que pode estar por detrás de algo. Marx expôs como as questões sociais e económicas impactam as nossas vidas; Nietzsche evidenciou o caráter artificial dos valores; Freud revelou como temos um inconsciente que nos influencia; todos questionaram aquilo que viram como aparências e fizeram por levantar o véu e espreitar. É esta visão crítica que precisamos em relação a tudo. Tudo: desde as mensagens que recebemos com hiperligação manhosas para encomendas que nunca fizemos, a discursos inflamos de políticos. O mundo digital já nos devia ter ensino isto. A literacia é aqui a palavra da moda e a palavra-chave. No entanto, não quero aqui defender um ceticismo radical, ou uma desconfiança crónica que desemboca num cinismo inercial: a dúvida não é um momento de ofensiva, mas de abertura; só nos é possível questionar quando temos boa-vontade, quando queremos realmente perceber algo. É a empatia e, sobretudo, a honestidade, especialmente, intelectual, as faculdades que nos permitem ouvir o outro, perceber, pensar e argumentar. Eventualmente, chegamos a conclusões comuns, se não, ao menos conseguimos defender melhor as nossas posições. Que a crítica não seja desculpa para o ódio, a divisão; que a estabilidade e o consenso não sejam desculpas para neutralizar a crítica: é este o meu desejo para 2025.