Esta semana aloja, na sua quinta-feira, o Dia da Europa. Para muitos portugueses, União Europeia é sinónimo de apoios financeiros, de projetos – principalmente para quem nasceu nos anos oitenta e por aí diante. Parece-me que pensamos muito pouco a Europa e o nosso lugar nela. Os momentos em que mais ouvimos falar nela são de cinco em cinco anos, aquando das eleições europeias – e, mesmo assim, os temas de campanha e os debates, muitas vezes, resvalam para assuntos nacionais. Cerca de metade dos portugueses não está interessada nestas eleições que ocorrerão a 9 de junho, apesar de uma grande maioria perceber o impacto da EU nas duas vidas [1]. Estas eleições são aquelas com maior abstenção em Portugal. Julgo que isto revela um pouco daquela que é a minha intuição: a Europa é uma oportunidade perdida. Este projeto internacionalista cria a possibilidade de uma ação conjunta, com um profundo impacto dentro das suas fronteiras, mas, também, fora delas. O caso das alterações climáticas é um excelente exemplo. A Europa é uma defesa aos perigos do mercado desregulado, da inteligência artificial desregulada,… Ou melhor, podia ser. Podia ser tudo isto e mais. Basta irmos às redes sociais das instituições europeias para se ter um cheiro do que pode ser feito [2]. Onde está o «mas»? Na falta de democracia. É isso que devemos discutir: como democratizar a Europa. Desde logo, não nos fazia mal nenhum ver o debate entre aqueles que são as escolhas dos partidos europeus como possibilidades para presidir à Comissão Europeia [3].
Permitam-me olhar um pouco para o cenário eleitoral das europeias em Portugal.
Já temos todos os cabeças-de-lista a estas europeias [4]. Tanto o PS como a AD (PSD+CDS) surpreenderam. O PS por colocar Marta Temido em destaque, quando o seu nome parecia (talvez ainda esteja) seguro para a Câmara de Lisboa, mas também por constituir uma renovação total (nenhum dos eurodeputados atuais do PS manterá o seu lugar). Não obstante, parece mais do mesmo e só o nome de Bruno Gonçalves gera alguma curiosidade. Por outro lado, a lista da AD surpreendeu pela novela com Rui Moreira e com a escolha de Bugalho para a encabeçar. Rui Moreira sempre afirmou que cumpriria o mandato até ao fim no Porto, mas andou pelos corredores a dizer que seria cabeça-de-lista da AD para ser comissário europeu [5], e veio a público queixar-se da indecência da AD o convidar para segundo ou mandatário (a ofensa!). Bugalho foi efetivamente uma surpresa. Já li várias críticas pela idade e falta de experiência política. Discordo e em artigos anteriores já o expliquei. O problema de Bugalho é que andou anos no comentariado a fazer campanha, apesar de se afirmar como jornalista. Trata-se de uma traição ao bom senso. No seu primeiro discurso [6] já conseguiu: errar o número de quinas da bandeira portuguesa (um episódio caricato, já que o governo da AD ajuda a importar uma guerra cultural, mudando o logotipo do governo de forma a melhor «respeitar» a identidade nacional) e usar uma expressão conotada com a extrema-direita [7]. Bugalho é, aliás, a prova do desvio do PSD para a direita, numa tentativa de recuperar eleitorado do CH. Muito mau prenuncio.
[1] https://europa.eu/eurobarometer/screen/home
[2] https://www.instagram.com/europeanparliament/reels/
[3] https://maastrichtdebate.eu/watch-live/
[4] https://www.jpn.up.pt/2024/04/23/saiba-quem-sao-os-candidatos-as-eleicoes-europeias/
[6] https://www.youtube.com/watch?v=RGxoQwyc9K0&ab_channel=PSDTV
[7] https://pt.wikipedia.org/wiki/Sieg_Heil