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Um orçamento muito de esquerda

Foi aprovado na semana passada mais um orçamento do estado. Um orçamento que em pouco difere daquele reprovado em novembro passado, o que levou o Presidente da República a dissolver a Assembleia da República e a convocar eleições legislativas antecipadas.

E que respostas dá à crise atual o orçamento que o Governo da República e o PS dizem ser muito de esquerda?

Para fazer face à escalada dos preços que o governo prevê que atinja os 4% este ano, valor talvez com excessivo optimismo, o governo não tem respostas no orçamento. É um orçamento que parou em novembro de 2022, quando já era deslocado.

Subida de salários? Controle de margens de comercialização para mitigar a subida de preços? Imposto sobre os lucros extraordinários como será aplicado pelos mais insuspeitos dos governos, como o britânico, esse perigoso governo esquerdista? Nada disso, porque primeiro estão as contas públicas! Para o Governo da República as pessoas que fiquem mais pobres porque as contas públicas têm de ser protegidas e não se podem dar dentadas no bolo dos lucros pornográficos que a inflação está a gerar. E isso, diz sem se rir o PS, é muito de esquerda. Uma esquerda mega pós-moderna, certamente, que cada vez mais se parece com os mais radicais dos liberais.

As taxas de juro provavelmente subirão no futuro próximo. Isso levará ao aumento das despesas das famílias, principalmente com a habitação, a somar às brutais subidas dos combustíveis e dos produtos alimentares. Terão mais salário para fazer face a esse aumento de despesa? Não! Diz o PS que a dívida pública é elevada (é verdade) e que, num cenário de aumento de 1pp na taxa de juro da dívida pública, isso poderia significar mais 400 ME em juros. E as famílias com empréstimos? Se a taxa de juro de referência subir, como ficarão? Terão aumento de rendimento para fazer face a essa despesa? Não! O orçamento do estado preocupa-se mais com as contas públicas do que com as contas dos portugueses e portuguesas! E isso é muito de esquerda, diz o PS!

Mas a consciência social do governo da república não está morta, está só moribunda, quase parece a do CDS! O governo atualiza os apoios sociais à taxa de inflação para, pelo menos, proteger os mais pobres dos mais pobres? Claro que não! Isso seria irresponsável! Para atenuar os efeitos da inflação, o governo atribui um apoio de 60 euros aos beneficiários da tarifa social de energia e de alguns apoios sociais. Darão esses 60 euros - 8,57€ por mês - para ao longo do ano, compensar o aumento do preço de bens alimentares, combustíveis e transportes? Claro que não! Mas em primeiro lugar está o déficit e as contas públicas! E isso é muito de esquerda, diz o PS!

Tudo isto é uma versão atualizada da célebre e triste frase do novel presidente do PSD, Luís Montenegro "a vida das pessoas não está melhor mas a do País está muito melhor". Neste caso “As pessoas que fiquem pior, o país é que não”.

Nos últimos anos, quando não estávamos perante uma brutal crise, o Governo da República do PS sempre colocou as contas públicas em primeiro lugar, deixando na gaveta investimentos públicos orçamentados para fazer brilharetes ao fim do ano com o défict. Agora, perante uma brutal crise, a prioridade continua a ser o déficit e as contas públicas! Afinal quando é que, para o PS, a prioridade serão as pessoas? Certamente num futuro longínquo, muito próximo do nunca! E isso é muito de esquerda, felizmente não é a minha esquerda!