“O mundo é um palco e todos os homens e mulheres são meramente personagens”, segundo Shakespeare. Penso que é fácil termos esta relação: quanto mais não seja pelos dias em que nada nos parece fazer sentido, em que perguntamos, afinal, porque fazemos o que fazemos? e a cada porquê colecionamos novas incertezas. Nesses momentos, tendemos a ver o mundo como uma farsa, uma aparência, onde somos marionetas e nem sabemos se somos quem controla os fios. Há aqueles dias em que não nos voltamos para o mundo, mas para a sociedade: porque é que me submeto à legislação, a papeis? qual a legitimidade da nossa democracia?, afinal, o poder é um mero conceito. Nesse momento as nossas instituições esfumam-se e sentimo-nos, quase, como os outros animais - digo quase por estes também terem as suas instituições. O mundo é, portanto, um palco, uma ficção à qual tentamos dar sentido. Hoje, gostava de fazer uma outra alusão a partir da célebre frase shakespeariana: o mundo como palco de egos.
Desde logo, perceber de que forma uso os termos. O mundo, naturalmente, é o ambiente onde estamos, o espaço que partilhamos na nossa vivência. Já o ego corresponde à nossa resposta à pergunta quem somos?, trata-se do conjunto de crenças, opiniões, que temos sobre nós próprios. Quando dizemos que alguém tem o ego inflamado, quer dizer que se tem em grande consideração. A forma como nos vemos, naturalmente, não é necessariamente coincidente com o que as outras pessoas vêm em nós - nem a como de facto somos, se é que é possível ser dessa forma. Não obstante, mesmo não coincidindo, o ego afeta a nossa forma de estar no mundo. Dito isto, penso ser natural afirmar que aquilo que todos procuramos é ter um ego positivo, reforçá-lo, estimulando a nossa autoconfiança e autoestima, o nosso bem-estar. Assim sendo, não só o nosso ego impacta as nossas ações e visão do mundo, também o queremos agradar. Daí se segue que as nossas ações são marcadas pela tentativa de reforço do ego. E está criada a ficção: não sabemos o que somos, sabemos o que queremos ser e dançamos neste palco da “melhor” forma que conseguimos - julgo que para a maioria de nós as aspas não se aplicam.
Julgo que esta última visão não nos incomoda particularmente, afinal, o único problema parece ser as pessoas incorrerem no mal para benefício próprio, contudo, esse problema pode-se argumentar que sempre acompanhará a História da Humanidade. O problema, parece-me, é quando o próprio bem sai afetado: quando dentro do campo do moral e legítimo (segundo o sentido comum) se entra numa competição. Quando podemos falar de palco para luta de egos.
Esta é uma luta normalizada. Neste sistema somos linhas num papel que diz onde estudámos e trabalhámos. Para fazer face, valoriza-se a quantidade à qualidade, retirando o genuíno e omitindo as verdadeiras questões. Não temos nada a ganhar com o evitar de discussões, já basta nos camuflarmos para parecermos bem.
Em jeito de comentário final, penso ser esta uma das razões para vermos poucos filósofos e formados em Filosofia como políticos - discutem-na academicamente e mediaticamente, mas sem tomar uma participação no real processo de decisão. Como facilmente duvidam e notam esta coreografia de aparências, quase como se perde a esperança numa real consequência. Talvez também aqui haja uma misantropia que pode vir de pensar o Homem - que se note que não estou a dizer que os filósofos são misantropos.
Posto tudo isto, é uma maravilha poder estar para conhecer pessoas tão fantásticas.