Recentemente tive a oportunidade de participar numa formação da Amnistia Internacional Portugal. No fim de semana que passei em Aveiro, aprendi sobre o funcionamento interno daquela organização histórica, pela voz dos próprios dirigentes. Aquilo que vi, foi um modelo para uma grande parte do associativismo - se ele fosse levado a sério por quem nos governa.
Antes de mais, penso ser necessário expor o que é isto da Amnistia Internacional, para se compreender a razão da sua organização. A Amnistia surgiu no início dos anos 60, pela mão de um advogado britânico, como um movimento que enviava, em massa, cartas a regimes para libertarem presos políticos - corre a história, até suportada no site internacional, que o movimento começou com um texto de opinião desse advogado sobre dois jovens portugueses que foram presos por fazerem um brinde à liberdade. Em pouco tempo, essa maratona de cartas passou a ser feita também por ativistas de outros países, internacionalizando-se esse movimento de amnistia dos prisioneiros de consciência - assim chegamos ao nome Amnistia Internacional. Além desta temática, adotaram também o combate à tortura e à pena de morte. A Amnistia tornou-se um bastião da defesa dos Direitos Humanos, contando com 10 milhões de ativistas, atualmente, e incontáveis casos de sucesso no seu histórico.
A grande força da Amnistia é a sua investigação. A organização é vista como uma entidade imparcial, com especialistas profissionalizados em investigar as denúncias que, de todo o mundo, chegam a dar conta de abusos e problemas. Ainda hoje se mantem a maratona de cartas, escolhendo-se anualmente vários casos globais emblemáticos de indivíduos perseguidos pelo seu pensamento, a par de muitas outras iniciativas. Claro que parte crucial do processo é o financiamento vir de indivíduos e não de grandes empresas, Estados,...
Em cada país, a organização tem uma secção que se rege como associação, segundo as leis desse país. Nós temos a Amnistia Internacional Portugal (amnistia.pt). Tanto a organização internacional como as secções nacionais são estruturadas com a mesma lógica: são governadas por voluntários e geridas por profissionais. Ou seja, as direções são eleitas de entre todos os membros do movimento e têm como função o estabelecimento da estratégia do movimento. É a implementação desse plano estratégico que, sendo uma atividade de gestão, é exercida por profissionais. Os voluntários colocam os objetivos e os profissionais cumprem-nos. O expoente deste sistema é a figura do diretor-executivo: uma personalidade contratada que dá a cara, que serve como porta-voz. É o responsável por toda a atividade, por traçar um caminho para se atingir os objetivos e gerir a equipa.
Ora, a verdade é que isto não é assim tão atípico, muito pelo contrário: as associações, com fundos para isso, contratam os seus próprios profissionais para prosseguirem com a sua atividade. Aquilo que me parece paradigmático é a seriedade com que esta fronteira é estabelecida. Reconhece-se que a governança tem de ser democrática e isenta, mas que esses voluntários têm tempo reduzido, devendo a concretização dos planos ser feita pelos técnicos, que vão atualizando a direção sobre os avanços. Reconhecer que as pessoas têm vida além da associação e que uma associação precisa de pessoas a tempo inteiro, sem comprometer a sua democraticidade.
São precisos recursos financeiros para suportar os custos com recursos humanos, mas não basta abrir os cordões: as próprias direções têm de trabalhar na sua mentalidade e dar liberdade aos funcionários, dentro do necessário.
Claro que este esquema funciona bem em associações com uma veia mais tecnocrática, sem uma marcada vertente ideológica. Mesmo a Amnistia, tendo trabalho político, é uma entidade que só advoga o bom senso.