Share |

Um péssimo negócio para os Açores

Ontem a comissão europeia anunciou a aprovação do plano de reestruturação da SATA, anúncio este que inclui um conjunto de informações que mudarão profundamente o Grupo SATA e, por conseguinte, os Açores.

Em primeiro lugar, foi uma falta de respeito tremenda para com os açorianos ser a comissão europeia (CE) a fazer esse anúncio. O governo regional nem o plano de reestruturação aprovado entregou aos grupos parlamentares, pois o documento que foi entregue data de novembro de 2021! Srs. membros do governo, há quem leia os documentos! Mas parece que é apenas na oposição!

Mas olhemos então para a decisão anunciada. Em primeiro lugar no que respeita à recapitalização da empresa, ficamos a saber que, para além dos 318,25 milhões de euros a converter em capital próprio já injetados na empresa ou aprovados no orçamento, haverá mais 135 milhões de dívida avalizada pela região. Será dívida nova a somar à dívida pública da região. É curioso ouvir os partidos que apoiam o governo dizer “nem mais um euro para a SATA” quando ao mesmo tempo apoiam o aumento da dívida pública regional em mais 135ME.

Essa recapitalização era, sem dúvida, necessária para que a empresa pudesse sobreviver e encontrar um caminho de sustentabilidade para cumprir o serviço público que presta. No entanto as condições que o governo não só aceitou como apoia, significam que os açorianos vão pagar os prejuízos para entregar a SATA Internacional e o serviço de assistência em terra (handling) a privados.

A privatização da SATA Internacional só terá viabilidade se esta for entregue limpinha de dívidas e valerá pelos slots que a empresa detém no aeroporto de Lisboa. A empresa perde a sua autonomia e deixará, muito provavelmente, de existir a médio ou longo prazo.

Os contribuintes pagam as dívidas e uma companhia aérea privada liquidará a empresa a prazo. Ficaremos dependentes a 100% do mercado para a nossa mobilidade. Um enorme erro. Nas ilhas com gateways não liberalizadas, quanto será necessário para uma empresa privada operar nessas rotas? Provavelmente mais do que o governo quererá pagar. Estão assim em risco de desaparecer.

O Governo e a direita juram que não haverá despedimentos. Ou o PSD pensa proibir empresas privadas de despedir, ou nada garante que os novos donos da SATA Internacional e handling não o farão. Ora, é precisamente no handling que muitas dúvidas subsistem. Será criada uma nova empresa para ser privatizada, ao que parece, a 100%. Quantos trabalhadores ficarão nessa empresa? Serão os 478 afetos a essa atividade, como consta do plano de reestruturação? Poderão eles recusar a transferência e manter-se na SATA Air Açores?

Mais de 1000 trabalhadores que têm o seu futuro em risco, quase 500 dos quais no handling em todas as ilhas e mais de 600 na SATA Internacional.

Resta saber para quem será esse negócio do handling. Será para a ANA que já gere vários aeroportos nos Açores ou para o grupo Bensaúde, que já tem extensa operação terrestre e marítima nos Açores?

Este plano de reestruturação da direita será bom para privados e péssimo para os açorianos. Representa o desmantelamento do grupo SATA e o abdicar de um grande instrumento económico e uma peça importantíssima da nossa autonomia.