Hipocrisia é uma palavra muitas vezes mal usada segundo alguns dicionários: ela parece servir como sinónimo de “incoerência”, um “hipócrita” como alguém que prega algo e faz o oposto. O famoso dicionário online Priberam apresenta a definição “Demonstração de bondade, de amabilidade, de ideias ou opiniões apreciáveis que não corresponde àquilo que alguém pensa ou sente de verdade” e a Infopédia da Porto Editora corrobora com “fingimento de qualidades, princípios, ideias ou sentimentos que não se possuem, falsidade”, mas já dando o tom para o uso corriqueiro da palavra. O termo grego que lhe está na base esclarece: “dissimulação”. Da incoerência à falsidade é um passo, ambas ressalvam uma dissonância. Eu não escrevo isto para explorar um “erro”, até porque a língua é dinâmica e as palavras ganham novos significados, mas porque a hipocrisia no seu sentido lexicográfico parece andar a pulular no espaço público.
No passado dia 10 de setembro um ativista político norte-americano de extrema-direita foi morto a tiro enquanto discursava numa universidade. Basta olhar para há uns dias para ver como este era um tema sensível – e ainda o é, mas o tempo já o esbateu numa sociedade que não consegue lembrar-se de algo dois dias depois.
Foi um tema sensível. Sensível por ser a morte de uma pessoa. Sensível pela sua violência. Sensível pelo seu significado. No meio de tanto ruído, parece que o silêncio é o único refúgio, mas é preciso pensar o que acontece e por isso só hoje menciono este assunto.
Um homicídio é um homicídio, é um retirar vida que deve sempre ser condenado. Isto não deve significar, contudo, um seguir em frente irrefletido. Homicídios têm causas que devem ser evitadas e não santificam as suas vítimas. Charlie Kirk não era um simples comentador, era um ativista que ajudou a criar um movimento supremacista, que incitou a crimes de ódio, que defendeu que as mortes de crianças em tiroteios nas escolas eram um preço a pagar pela liberdade no posse de armas,… Aquilo que espero é que quem está a “celebrar” não o faça pelo homicídio, mas pela morte destas ideias, tal como ela tomaria lugar se Kirk continuasse vivo e tivesse mudado de opinião. Infelizmente, as ideias não desaparecem com a morte do seu ideólogo, o assassinato político não deve ser opção.
Nas redes sociais multiplicaram-se as reações, condenando quem quer silenciar a liberdade de expressão e atacando quem não se comove com o homicídio. A primeira hipocrisia está no facto de muitas destas pessoas nem terem conhecimento prévio sobre Kirk, usam o seu assassinato como arremeço político. A segunda hipocrisia é falarem de Kirk mas não dos mais de 300 mortos só este ano nos EUA, vítimas de tiroteios, nem quando em junho a deputada estadual Melissa Hortman foi assassinada com o seu marido.
Só é sensível por ser mediático, por expor o resultado da agenda de ódio, porque dá jeito não falar. Criam-se falsas polarizações, quando se devia falar no extremar.
Pessoas que na nossa geografia tiraram do seu tempo para falar de Kirk, mas que ignoram as dezenas de milhares de mortes de inocentes na Palestina. O nosso governo finalmente reconhece o estado palestiniano e fá-lo como um frete, até se enganando na bandeira. E é um frete: reconhece, mas fica em silencia sobre o ataque a um navio português com tripulação portuguesa que segue para Gaza com ajuda humanitária.
Este é o último texto que escrevo antes das eleições. Resta uma mensagem: que deve ser o nosso bem-estar o centro da preocupação e não conceitos abstratos, que isso é possível se assim decidirmos e, portanto, que não fechemos os olhos a uma oportunidade para mudarmos o mundo começando pela nossa comunidade.