Um teto é mais do que quatro paredes. É segurança, dignidade e pertença. As chuvas intensas desta época festiva lembram-nos como é essencial ter um abrigo. A casa é o centro da nossa vida: é onde se constrói família, comunidade e esperança.
Não ter casa significa enfrentar tempestades naturais e sociais, perder laços com a comunidade e, tantas vezes, com a própria família.
Recentemente, uma carta aberta assinada por 115 pessoas sem teto revelou um dado alarmante: em São Miguel, cerca de 150 pessoas vivem sem teto. Pedem medidas urgentes — centros de alojamento temporário, espaços protegidos, acesso à alimentação, higiene e cuidados de saúde.
O estudo “À Margem - A Condição de Sem-Abrigo nos Açores”, publicado pela Associação Novo Dia, já alertava em 2022: em 2020 existiam 493 pessoas sem abrigo na região, das quais 105 sem teto. A situação era crítica em Ponta Delgada, mas também se verificava em Angra do Heroísmo, Horta e Pico. Se esses números eram preocupantes, hoje são devastadores.
O Estado falhou. Esta não é uma questão individual — é um reflexo da nossa comunidade e é nossa responsabilidade.
No pós-pandemia, enquanto a economia recuperava e os lucros cresciam, os turistas enchiam hotéis e os alojamentos locais multiplicavam-se, ocupando casas que antes eram lar. A crise da habitação expulsou centenas de pessoas dos quartos precários onde viviam. Silenciosamente, aumentou o número de sem-abrigo, muitas vezes associado a dependências.
O governo regional e os municípios mantiveram, no essencial, as mesmas políticas já desadequadas antes da pandemia. Ao mesmo tempo, o governo regional cavalgava a onda anti-pobres da extrema-direita, fazendo do combate aos beneficiários do RSI um objetivo da sua política. Decidiu subsidiar a criação de mais alojamentos locais, agravando a crise.
É preciso agir. Criar medidas de emergência, garantir um teto para todos, definir uma estratégia clara e dar recursos às entidades que conhecem estas pessoas e trabalham no terreno. Governo e municípios não podem demitir-se das suas responsabilidades. Têm a responsabilidade de criar as respostas de emergência, definir as políticas e alocar os recursos.
Um teto é um direito. É hora de cumprir.