Uma capela Kamppi em cada esquina

Não é preciso muito para nos sentirmos destabilizados. O confronto com o inesperado é suficiente para nos fazer questionar o que havíamos tomado por pressuposto, ou como axioma funcional. Há cerca de oito meses tive a oportunidade de visitar Helsínquia, além de outras capitais nórdicas. A aproximação à praça Narinkka (por Simonkatu, de este para oeste) não foi particularmente atraente, apesar da praça o ser. O percurso parecia algo caótico, não sei bem como, nem porquê. Não obstante, desemboca-se numa praça convidativa à comunidade. Um dos elementos dessa praça que mais impacto causa é a capela Kamppi.

A atenção de um transeunte divide-se entre a presença dessa capela e o talento de um artista de rua. Projetada pelo atelier K2S Architects, a capela foi concluída em 2012, integrando as celebrações de Helsínquia como Capital Mundial do Design. Estruturalmente, o edifício destaca-se pela sua geometria curva e volumetria compacta, apresentando uma fachada cega, desprovida de aberturas laterais. O revestimento exterior é composto por ripas horizontais de madeira de abeto, curvadas à medida e protegidas por um acabamento de cera pigmentada. A base do edifício, que abriga as áreas de receção e serviços, é construída em betão e vidro, criando um suporte visualmente leve para o volume orgânico de madeira que se eleva sobre a praça.

De facto, há algo de nórdico neste edifício. Talvez a sensação de recolhimento num espaço quente, algo sugerido pelo tom avermelhado, acastanhado exterior. Talvez a parecença com o casco de um navio, lembrando as lendas vinkings. A este ponto havia alguma maravilha, mas não destabilização. Afinal, este é um ponto turístico, faz parte do roteiro, não é propriamente uma surpresa.

O choque vem aquando da entrada. No interior, a nave é integralmente revestida por tábuas de madeira de amieiro negro, fresadas de forma a garantir uma continuidade visual nas superfícies curvas. O design abdica de qualquer iconografia religiosa ou elementos decorativos (à exceção de um púlpito, uma vela e um ramo com galhos), focando a experiência espacial na textura do material e na acústica. A iluminação é resolvida através de uma fenda zenital perimetral, que permite a entrada de luz natural indireta. Este sistema faz com que a luz deslize pelas paredes onduladas, realçando a volumetria do espaço sem a presença de luminárias visíveis ou sombras diretas, reforçando o isolamento térmico e sonoro da estrutura. Trata-se, então, de um espaço com uma área reduzida, uma altura considerável, uma ornamentação minimalismo e um silêncio profundo.

É um local onde o mundo só não fica suspenso, porque as batidas dos handpan’s exteriores ressoam. É um local que nos confronta connosco próprios, no qual temos de ouvir a voz incómoda da nossa consciência, somos raptado pelos nossos próprios pensamentos. É nesse momento em que se constata a fuga do pensamento em que o quotidiano nos mergulha. Num mundo com tanto ruído e estímulo, refúgios silenciosos são uma necessidade. São locais de resistência, de terapia. Locais de reencontro. Ao olhar para as nossas ilhas não me parecem faltar lugares assim. Aquilo que acontece é o contrário: parece que se quer imitar a vida apressada e ansiosa de uma cidade.

Aproveitemos a calma que temos a sorte de poder ter para preservar e ainda melhorar a nossa qualidade de vida. Aquela em que não só há mais saúde, como também nos reconhecemos a nós próprios.