Uma esperança outonal

Há uns anos parecia que a loucura era estrangeira, que a distopia até podia torna-se realidade, mas não no nosso quintal. De facto, do outro lado do Atlântico temos um presidente cuja base só hesita em apoiá-lo quando ele diverge das teorias da conspiração – é o caso Epstein que enfraquece a sua imagem, não o usar o exército contra o próprio povo ou ser capaz de dizer que Gaza deve ser um resort. Nós também pagamos esta distopia: foi selado um acordo entre EUA e EU do qual a Europa sai humilhada, com taxas de 15% impostas sem retaliação e obrigação de importações aos EUA. A conversa belicista de armar a Europa afinal serve para encher os cofres dos EUA com cenas de milhares de milhões – se cada euro for um segundo, são mais de 3000 anos! Quando enfrentamos crises sociais como da habitação e pobreza, quando negligenciamos a catástrofe climática para a qual caminhamos, os nossos recursos, o nosso dinheiro, é usado para estimular egos e matar. É bastante comum afirmar-se que em Portugal não existe dinheiro, mas se há algo que a novela sobre armamento revelou é que afinal só depende da vontade política. Que fiquem registadas as escolhas.

Mais do que este alinhamento de Portugal com a Nato (servidão aos EUA), temos episódios nacionais também distópicos só esta semana. Desde logo o veto de Portugal a incluir numa declaração da CPLP o direito de palestinianos à alimentação, atendendo ao cenário infernal em que estão mergulhados. Como é possível Portugal tomar esta atitude? E estamos a falar só de palavras num papel, imagine-se se fosse mais do que isso. Na verdade, não precisamos de imaginar. Os EUA têm em Portugal um cúmplice nas suas operações militares e os Açores carregam essa triste mancha.

A ministra da saúde referiu-se aos primeiros relatórios que começam a ser concluídos sobre as mortes em novembro associadas a atrasos do INEM, manifestando que está a «aprender» com essas mortes. Isto é admissível? Claro que a declaração à imprensa não teve direito a perguntas.

O partido de extrema-direita já nos habituou à sua manipulação demagógica na retórica, em completa indiferença em relação à verdade, mas esta semana o seu líder foi capaz de publicar na sua conta um vídeo que manipula com vídeo de Mortágua, reordenando algumas das suas palavras de forma a passar a mensagem falsa. Confesso que mais chocante do que esta impunidade é o facto de ser tão óbvio que o vídeo é uma colagem de excertos, levando a crer que quem o apoia sabe bem o que está a fazer.

Por fim, numa lista que podia infelizmente ser muito mais longa, temos a notícia de que em Portugal também se procedem a detenções injustificáveis de imigrantes: um homem que mora há anos em Portugal que, inclusive, tem contrato de trabalho, faz descontos, tem residência fixa e não cometeu nenhum crime está detido pela deficiência dos processos burocráticos da AIMA – tornando-o irregular e não ilegal. Mais, a sua detenção é justificada com base no risco de fuga, apesar daquilo que lhe havia sido pedido era ter abandonado o país – que recusou cumprir.

São casos que nos revoltam, contudo, após alguma reflexão, são capazes de nos fazer sentir impotentes. Parece ser a escuridão, o ódio, a mesquinhez, a levarem a melhor. No meio de tantos casos destes, habituamo-nos, normalizamos, e tornamo-nos indiferentes.

A mensagem que aqui gostava de deixar é a de que se cada um trabalhar na sua comunidade para travar esta onda, resistimos. O poder local em concreto pode ser um tampão, dinamizando a comunidade através de valores como a cooperação, estando próximo da população, do seu quotidiano, e sendo um veículo de literacia. Se alguém se preocupa com a sua terra, não fique indiferente nestas autárquicas.