Uma estrutura ao relento

Julgo ser pertinente advertir que as linhas que se seguem são fruto de uma deambulação terapêutica. Uma tentativa de articulação de pensamentos que, julgo, poderão interessar ou provocar outros. Certamente que aquilo que entendemos como «opinião» sempre o serão, não obstante, a linha para a vida interior poderá estar mais ou menos esbatida.

Esta altura da Páscoa oferece uma possibilidade de regresso a casa. Isto significa a oportunidade de andar pelas ruas povoadas de memórias. Trata-se de uns dias em que vem ao de cima uma espécie de vida dupla, da sensação de que existe uma vida na ilha, que continua, além daquela que se tornou familiar noutra geografia. De facto, não consigo conceber um cenário em que o espectro do basalto genético seja apagado. Como escreveu Daniel de Sá: «Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela!».

Nesse contacto com a terra-mãe, «A ilha em que nascemos é um eixo do Cosmos, uma pequena-pátria, um mundo de referências matriciais», como afirma António Machado Pires, existe uma grande fecundidade para a reflexão. A cada passo dá-se um novo clarão mental.

Foi neste contexto e neste estado que ao olhar para um dos mupis partidários em branco, com cartaz por colocar, que se me veio à mente um beliscão, intuitivamente se apoderou a necessidade de suprir essa falha (sendo algo também da minha responsabilidade). Bastou o tempo de uma respiração para essa trivialidade ficar ofuscada por questões: porque é que importa o mupi ter um cartaz? porque importa haver propaganda política? porque a propaganda partidária é poluição visual, mas publicidade comercial não gera tanto descontentamento?

De uma quase vergonha por uma falha que a mim chamei, passei à frustração de um nobre perdedor. De como o esforço político é ingrato. É fácil esquecermo-nos que as coisas não se fazem sozinhas, principalmente aquelas que não vemos a serem feitas. São precisas pessoas que despendam do seu tempo livre para levar a cabo esse trabalho militante. Um trabalho militante que é o que dá vida à democracia. A democracia é experimental, só existe se for exercida. Posso garantir que essa ação não se resume a rabiscar um papel de tempos a tempos e colocar numa urna. É um trabalho de intervenção cívica, de criação de espaços de discussão e ação. Tornar questões visíveis é vital para dinamizar o espaço pública e a propaganda tem aí um papel (principalmente provocador/incitador).

Estava a sair de um supermercado a contemplar a principal rua da vila, quando surgiu outra reflexão, que se segue justamente desta última: então, quem se predispõe a este trabalho militante? Quantos conterrâneos podem afirmar, por exemplo, já terem organizado uma lista com um programa e gerido uma campanha que avançasse uma visão e um plano de ação para a nossa terra? Quantos? E quantos se queixam diariamente da nossa arena política?

Aquilo que me custa neste cenário nem é a fraca motivação para participar politicamente, até porque a forma como a vida está hoje construída é para constranger de tal forma o nosso tempo, que não conseguimos fazer nada. O mais frustrante é ter de levar com os comentários habituais como «são todos iguais», «mentirosos», «só querem tacho», sendo incapazes de perceber que falamos de pessoas. No caso de comunidades pequenas, de pessoas que conhecemos. Entra-se em inconsistência lógicas, ora sobre o que importa são os candidatos, ora sobre a experiência que deve ter quem nunca lhe foi dada essa oportunidade.

Tantos limões.